Entre as reivindicações, estavam cartazes pedindo ao STF (Supremo Tribunal Federal) que permita que pessoas trans usem o banheiro do gênero com o qual se identificam. Foto: André Nery/Diadorim
Ativistas pedem ao STF que permita que pessoas trans usem o banheiro do gênero com o qual se identificam. Foto. André Nery/Diadorim
direitos humanos

Banheiros públicos e gênero: o que o debate ignora

O debate sobre o uso de banheiros por pessoas trans, travestis e não binárias costuma ser conduzido a partir de argumentos que, sob o pretexto de proteger mulheres cis, reforçam estigmas e ignoram soluções práticas já existentes. Recentemente, a página Matria publicou no Instagram uma série intitulada “Falácias comuns no debate sobre banheiros femininos”. Mas, ao observarmos a história e a arquitetura desses espaços, fica evidente que a principal falácia é tratar a separação por sexo como única forma possível de garantir segurança e privacidade.

Um dos argumentos mais repetidos é a tentativa de desqualificar o exemplo dos banheiros de aviões, sob a justificativa de que são cabines individuais. Mas é justamente esse aspecto que torna o exemplo relevante. Ele mostra que o fator decisivo para garantir privacidade não é o gênero das pessoas que utilizam o espaço, e sim o desenho arquitetônico do ambiente.

Se cabines totalmente fechadas resolvem o problema da privacidade, a resistência em adotar modelos semelhantes em espaços coletivos revela que o debate vai além da proteção. Projetos como o Stalled!, do arquiteto Joel Sanders, já demonstram que é possível criar banheiros públicos com áreas comuns compartilhadas e cabines fechadas que atendam todas as pessoas, independentemente de idade ou gênero.

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A ideia de que banheiros “sempre foram separados por sexo” também não se sustenta historicamente. Essa divisão é uma construção social relativamente recente, consolidada entre os séculos 19 e 20 com as reformas industriais e higienistas. Antes disso, espaços coletivos de higiene não seguiam necessariamente uma lógica binária.

Ao apresentar essa separação como algo “natural”, ignora-se que a arquitetura também opera como ferramenta de poder, definindo quem pode circular e ocupar a esfera pública. Trata-se de uma lógica que, historicamente, já foi usada para justificar outras formas de segregação em nome da “segurança” e da “ordem”.

A preocupação com a violência, embora legítima, frequentemente mira o alvo errado. Estatisticamente, a violência de gênero ocorre muito mais no ambiente doméstico do que em banheiros públicos. Quando o foco se desloca para policiar o acesso de pessoas trans aos banheiros, a discussão acaba desviando a atenção dos reais agressores e aprofundando a desumanização de uma população que já vive em situação de vulnerabilidade.

Também é especulativo afirmar que a “autodeclaração” abriria caminho para agressores. Políticas públicas devem partir de problemas concretos e da garantia de direitos, não da vigilância sobre identidades ou corpos.

No cotidiano, a autodeclaração de identidade já é aceita em praticamente todas as interações sociais. Então por que o banheiro se transforma em um espaço de exceção? A convivência entre diferentes pessoas em ambientes compartilhados já faz parte da realidade em casas, aviões, escolas e transportes. O que garante respeito não é uma placa na porta, mas regras de convivência e espaços adequados.

Garantir que pessoas trans utilizem banheiros de acordo com sua identidade de gênero não retira direitos de mulheres cis. Pelo contrário: amplia a noção de cidadania e dignidade para todas as pessoas. O debate precisa avançar da exclusão para soluções arquitetônicas e sociais capazes de acolher a diversidade humana, em vez de insistir em modelos binários cada vez mais insuficientes.

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Josefina Cicconetti

Doutoranda em Estudos de Gênero pela Universidade Nova de Lisboa, mestra em Filosofia pela USP (Universidade de São Paulo) e especialista em Políticas Públicas de Direitos Humanos pelo IPPDH (Instituto de Políticas Públicas e Direitos Humanos). Atua na área de direitos humanos na América Latina há mais de 10 anos.

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