O armário rural: viver a homossexualidade em cidades pequenas
Ilustração criada com inteligência artificial
comportamento

O armário rural: viver a homossexualidade em cidades pequenas

Há um imaginário confortável sobre o interior do Brasil de que as relações são mais próximas e com um certo tempo mais humano. Fernanda Takai já pontuava que “diminuindo a cidade, vai aumentando a simpatia”, porém, funciona menos quando o assunto é dissidência. Nesse contexto, só quem é queer sabe que se enterrar no anonimato (ou deixar de existir) é a única forma de existir, ironia acompanhada de sorriso, pão de queijo assado na hora e café quentinho passado no pano.

Nas cidades pequenas, o armário não se limita à intimidade, e se espalha pela praça, pela igreja, pelo bar, pela escola… Todo mundo conhece todo mundo, ou acha que conhece. Ser “fi de quem” se torna vigilância velada.

A homossexualidade, nesse ambiente, é tolerada sob certas condições. Um menino diferente? A moça que ficou para tia? Talvez o mecânico caladão da oficina? Se não aparecer, tudo fica bem. Pode frequentar o baile; pode jogar bola no campinho; pode nadar no rio com os amigos — às vezes pelados — e que não exibam nenhuma animação além de estarem juntos apreciando a vida.

Há uma pedagogia em funcionamento que ensina logo cedo o que pode e o que não pode. O autocontrole constante para não dar na pinta nem precisa de um episódio traumático para que essa aprendizagem se consolide. É o clima de medo que nos diminui naquilo que não somos.

O interior também produz vínculos complexos com afetos atravessados por contradição. São famílias que não expulsam, mas não acolhem. São amizades que toleram, mas desconfiam. É a igreja que vasculha, e cochicha entre santos de madeira. E nem adianta bater três vezes para espantar a má sorte.

Talvez por isso o armário rural seja mais difícil de desmontar do que o urbano. Nas grandes cidades, a violência é visível, mas contestada. Há espaços de refúgio para a afirmação e para encontrar a sua turma. No interior, a pressão é sutil e persistente, um contínuo de concessões onde quem concede mais está longe de ser toda a cidade.

A tecnologia não mudou esse quadro na proporção que se esperava. Aplicativos criaram possibilidades, mas não resolveram o problema do contexto. Em cidades pequenas, as redes virtuais e reais se sobrepõem e o anonimato rapidamente se desfaz. Assim, o encontro deixa de ser apenas desejo e passa a envolver cálculo de risco.

Isso ajuda a explicar um fenômeno recorrente: a saída. A migração para capitais ou cidades maiores deixa de ser apenas uma busca por oportunidade econômica ou acadêmica e se transforma em uma luta contra a negociação permanente.

Mas há algo que não se resolve com a mudança de CEP.

O armário rural está internalizado. O receio de dar bandeira continua operando, mesmo quando o contexto já permite outro comportamento, pois ainda persiste a dinâmica da culpa e dos olhares de conhecidos em julgamento, mesmo que estejam há quilômetros de distância.

Em “Flores Astrais”, o protagonista Tiago é um espelho de vivências pessoais minhas. Há cenas de sua infância, descobrindo o próprio corpo e envolto em dúvidas. Há o padre que se embola nas explicações, usando um vocabulário complicado que nem a fé consegue grudar direito. Há a família que insiste em moldá-lo a um padrão que não se encaixa. Há os cochichos entre as plantações de café. Mas há também as brincadeiras com amigos na cachoeira, compartilhando prazeres em segredo.

Discutir a homossexualidade no Brasil sem considerar o interior é produzir uma narrativa incompleta. Grande parte do país ainda vive sob esse regime de controle. O armário rural não é um estágio anterior de vida do indivíduo queer. O tempo, aqui, não cura nada.

Talvez o primeiro gesto seja nomeá-lo, porque, enquanto continuar sendo tratado como “jeito de cidade pequena”, ele seguirá funcionando com eficiência. E a vida segue editada, acompanhada de sorriso, pão de queijo assado na hora e café quentinho passado no pano.

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Marcelo Nery

Escritor e profissional da área de tecnologia. Formado em Ciência da Computação, foi professor universitário por 16 anos. Atualmente, atua como coordenador de game design na Arvore Immersive Experiences. “Flores Astrais” (Editora Mondru) é seu romance de estreia.

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