Dissidência LGB une feministas radicais e bolsonarismo no Brasil
Dissidência tem origem em grupo criado na Inglaterra. Foto: Divulgação/LGB Alliance
internacional

Feministas radicais e bolsonarista se unem em articulação LGB no Brasil

O rompimento público de um grupo de lésbicas, gays e bissexuais com o movimento LGBTQIA+ tem ganhado visibilidade no Brasil com o apoio de feministas radicais e influenciadores digitais. A chamada LGB Internacional, que se lançou com um manifesto em setembro, defende o “resgate” da sigla original e a exclusão de pessoas transgênero.

A dissidência se apresenta como uma reação à ampliação das causas LGBTQIA+ para incluir identidades de gênero. “Objetivamos a independência LGB, porque os direitos que tanto nos custou conseguir estão sendo ameaçados por identidade de gênero”, diz uma das porta-vozes em vídeo-manifesto divulgado no site oficial.

No Brasil, único país na América do Sul com grupo filiado à rede, a articulação se organiza sob o nome Aliança LGB, que se diz “suprapartidária” e tem atraído apoiadores de diferentes espectros políticos — da esquerda à direita —, sobretudo entre grupos ligados ao feminismo radical

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Em documento divulgado pela Aliança no Instagram, sem assinatura, o grupo afirma que não quer “debater identidades ou performances, mas sim a luta pelos direitos de pessoas homossexuais e bissexuais.

O texto diz que “a principal demanda é eliminar os estereótipos de gênero”, pois “a homofobia é a punição social para quem frustra tais expectativas”. Afirma ser “contraditório ‘acolher’ identidades de gênero que reafirmam estereótipos do que é ser uma mulher ou um homem”.

A aliança escreve que “não é transfóbica”, alegando que “como todo crime discriminatório, é necessário dolo específico de ofender a honra ou a dignidade”. O documento também cita que “a homossexualidade é crime em 64 países, e punida com morte em 11”, e questiona “por que paramos de falar sobre essas questões” e “como se fazem políticas públicas sem dados isolados e estatísticas concisas”.

A Diadorim procurou a Aliança LGB por email e questionou quem compõe e quem responde formalmente pelo grupo. A reportagem também perguntou sobre a relação da associação com a inglesa LGB Alliance, pioneira da dissidência, e se recebe algum tipo de apoio ou financiamento, nacional ou internacional. Até a publicação deste texto, não houve retorno.

Apoio feminista

Uma das organizações brasileiras mais ativas nessa divergência é a Matria, Associação de Mulheres, Mães e Trabalhadoras do Brasil, que milita contra o que chama de “ideologia de gênero”.

Um dossiê da Antra (Associação Nacional de Travestis e Transexuais) publicado no início de outubro afirma que a Matria, criada em 2023, “se configura como um grupo de lobby antitrans, que opera sob o disfarce retórico da defesa das ‘mulheres e crianças’”.

O estudo foi produzido em parceria com o Núcleo de Direitos Humanos e Cidadania LGBT+ da UFMG, o Sexual Politics Watch e o Coletivo Chama, com apoio de organizações como Criola, Geledés, Evangélicas pela Igualdade de Gênero e Renfa (Rede Nacional de Feministas Antiproibicionistas), além do respaldo de núcleos de pesquisa de 11 universidades federais.

Segundo o levantamento, com base em dados levantados ao longo de dois anos, a atuação da Matria “revela um projeto coeso” que tem como desdobramento o retrocesso nos direitos das pessoas trans. A associação, diz a Antra, tenta se consolidar “como uma das articuladoras da agenda antigênero no Brasil”, mantendo parcerias e publicações com grupos transexcludentes, antifeministas e de extrema direita.

A Antra afirma ainda que a Matria se ligou a parlamentares bolsonaristas para avançar seus interesses no Legislativo, adota “uma estratégia de litigância predatória antitrans” no Judiciário e mantém vínculos com organizações estrangeiras da ultradireita global.

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Em abril, a Matria entrou com a Ação Originária no STF (Supremo Tribunal Federal) acusando o CNJ (Conselho Nacional de Justiça) de divulgar “dado estatístico inverídico” em uma postagem no Instagram. O conteúdo afirmava que o Brasil é o país com mais homicídios de pessoas trans e travestis no mundo e que a expectativa de vida dessa população é de 35 anos.

A associação feminista alegou que os dados não tinham “respaldo de órgãos oficiais de estatística” e pediu indenização por dano moral coletivo.

O relator, ministro Dias Toffoli, rejeitou o pedido e extinguiu o processo. Ele afirmou que a ação, “sob o subterfúgio de correção de dados estatísticos, tenta minimizar as mazelas que assolam o grupo social das pessoas trans”, e classificou o caso como “verdadeiro ataque injustificado a grupo social vulnerável”.

Em nota à Diadorim, a Matria negou ser um “grupo de lobby antitrans” e classificou a acusação como “falsa e difamatória”. A associação afirmou que atua para “proteger os direitos de mulheres e crianças com base no critério sexo, conforme a Constituição Federal e tratados internacionais”.

O grupo justificou também que essa defesa “não constitui lobby antitrans, mas a preservação legítima de espaços e direitos do sexo feminino”. A Matria disse reunir “mulheres lésbicas, bissexuais, mães de filhos com disforia de gênero e pessoas destransicionadas”, e considerou as críticas “violência política contra mulheres”.

Além disso, afirmou que mantém diálogo institucional “com representantes do Legislativo e do Executivo, independentemente de partido”, negou ter “filiação ou dependência financeira de entidades estrangeiras” e declarou ser “autofinanciada por mais de 200 associadas”.

Sobre a relação com a Aliança LGB Brasil, classificou como “cooperação e pautas convergentes no campo dos direitos humanos, sem subordinação entre as entidades”.

Influenciadores Beatriz Bueno e Dom Lancellotti apoiam a dissidência no Brasil

Fotos: Reprodução

‘Parditude’ e bolsonarismo

A fratura LGB no Brasil também se tornou tema da influenciadora digital Beatriz Bueno, que ganhou popularidade na internet ao discutir o termo “parditude”, relacionado à identidade e à cultura de pessoas pardas brasileiras.

Beatriz é mestranda no programa de Cultura e Territorialidades da Universidade Federal Fluminense (UFF). Em uma publicação recente sobre o movimento transexcludente, ela afirmou que conheceu “o feminismo radical muito cedo, aos 15 anos, e foi um verdadeiro despertar de consciência”.

A influenciadora relatou que passou a ser criticada nas redes sociais ao discutir menstruação e saúde feminina. “Comecei a ser cobrada, diziam que eu não estava sendo ‘inclusiva’ por afirmar que mulheres menstruam. Segundo esse delírio coletivo, existiriam ‘homens que menstruam’”, escreveu.

Ela afirmou ter tentado se ajustar às críticas, influenciada por amizades trans da faculdade, mas acabou se afastando. “Eu era chamada de ‘cis privilegiada’, e diziam que meu trabalho, dedicado a cuidar de mulheres, era transfóbico. Até que me afastei dessas amizades… queriam me excluir por falar de buceta.”

Para Beatriz, é preciso “acordar desse pesadelo coletivo e lembrar que nomear a mulher não é excluir ninguém, querer se relacionar com o mesmo sexo não é excluir ninguém”.

Outro influenciador ligado aos dissidentes LGB é o influenciador Dom Lancellotti, fundador do grupo Gays com Bolsonaro, que manifestou apoio em suas redes sociais. Em uma publicação, ele afirmou que o movimento LGBTQIA+ “precisa de uma refundação”.

Segundo Lancellotti, o grupo teria sido “sequestrado” e “transformado num emaranhado de mentiras e falácias”, enquanto “pessoas continuam sendo presas, sofrendo ameaças e sendo mortas apenas por serem quem são”. 

“Não há liberdade possível quando parte da nossa comunidade é deixada para trás. A história do movimento LGBTQIA+ prova que nenhuma letra se sustenta sozinha e que a força da diversidade está justamente na solidariedade entre nós. Romper essa aliança é trair a nossa própria luta.”

A escritora J.K. Rowling gravou mensagem de apoio à conferência da LGB Alliance, em 2024

Foto: Divulgação

Atuação na Inglaterra

A LGB Alliance foi criada no Reino Unido em 2019. O grupo se diz como defensor dos direitos de lésbicas, gays e bissexuais, mas passou a ser descrito por entidades de direitos humanos como uma das principais vozes da ala “LGB sem T”, que rejeita a inclusão de pessoas trans e travestis nas pautas LGBTQIA+.

Segundo a revista norte-americana Them, a LGB Alliance mantém interlocução com autoridades britânicas e se tornou um dos principais grupos gender-critical, críticos à noção de identidade de gênero. 

A atuação da aliança inglesa já foi alvo de uma disputa judicial movida pela ONG Mermaids, que pediu à Comissão de Caridade da Inglaterra e do País de Gales a revogação do status de entidade beneficente concedido em 2021. Para a Mermaids, a LGB Alliance “não oferece benefícios concretos” à sociedade, como exige a legislação britânica.

Entre as apoiadoras da corrente divergente está a escritora J.K. Rowling, autora de Harry Potter, que gravou uma mensagem de apoio exibida na abertura da conferência anual da LGB Alliance, em Londres, em novembro do ano passado.

Em abril de 2025, a Suprema Corte do Reino Unido decidiu que, segundo a Lei da Igualdade, o termo “mulher” se refere apenas a “mulheres biológicas”. 

Uma reportagem da BBC mostrou que a LGB Alliance teve papel central no processo que levou a essa decisão. O grupo argumentou que o sexo biológico deveria prevalecer sobre a identidade de gênero, sustentando que a presença de pessoas trans em espaços exclusivos para mulheres colocaria em risco a segurança desses ambientes.

A diretora-executiva da aliança, Kate Barker, afirmou à BBC que a decisão trouxe “clareza” e negou que a posição do grupo fosse uma “objeção a pessoas trans”, mas sim “a homens em espaços femininos”, incluindo, segundo ela, “homens que acreditam sinceramente ser mulheres”.

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