
Como as eleições nos EUA podem impactar a ofensiva antitrans no Brasil
Nesta semana, os norte-americanos vão às urnas para as eleições de meio de mandato, conhecidas como “midterms”, que renovam o Congresso dos Estados Unidos. Em meio à disputa, um fenômeno merece a atenção da população LGBTQIA+ brasileira: a aposta dos republicanos em campanhas contra os direitos das pessoas trans para conquistar votos. O movimento interessa especialmente ao Brasil pela proximidade política entre o trumpismo e o bolsonarismo, que mobiliza pautas semelhantes.
Até 25 de outubro, o Partido Republicano, do presidente Donald Trump, havia investido 183 milhões de dólares em anúncios de televisão sobre questões trans, segundo levantamento da AdImpact divulgado pela Associated Press. Foram cerca de 217 mil veiculações em todo o país.
O investimento contrasta com as prioridades dos eleitores. Segundo pesquisa AP-NORC, apenas um em cada dez eleitores registrados considera as questões trans prioritárias. Já oito em cada dez apontam a economia ou o custo de vida como assuntos importantes.
A baixa prioridade atribuída ao tema, porém, não significa que ele seja irrelevante na escolha dos candidatos. Pesquisa do The 19th/YouGov, realizada em setembro com 2.357 adultos, mostra que 45% dos entrevistados afirmam ter maior probabilidade de votar em um candidato favorável à proibição da participação de atletas trans em equipes esportivas femininas.
Na mesma pesquisa, 42% consideram que os políticos não deveriam se concentrar em questões relacionadas às pessoas trans. As opiniões também variam conforme o direito em discussão: 45% são contrários à proibição ou restrição de cuidados de afirmação de gênero para menores de idade, enquanto 38% apoiam essas medidas. Outros 51% acreditam que pessoas trans enfrentam muita discriminação nos Estados Unidos.
A estratégia republicana, utilizada por Donald Trump em 2024, também pressiona os democratas. Segundo a Reuters, enquanto alguns candidatos tentam deslocar o debate para a economia, outros adotam posições mais conservadoras.
Da campanha eleitoral às propostas de lei
A mobilização em torno dos direitos trans não se limita à publicidade eleitoral. No Congresso norte-americano, propostas buscam restringir a participação de meninas e mulheres trans em competições esportivas femininas, o uso de banheiros conforme a identidade de gênero e conteúdos escolares relacionados à transgeneridade.
Uma dessas propostas, o H.R. 28, foi aprovada pela Câmara dos Representantes em janeiro de 2025, mas não se tornou lei. Outras seguem em diferentes etapas de tramitação.
Esporte, educação e acesso a espaços públicos também estão entre os temas de projetos apresentados por parlamentares brasileiros, especialmente ligados ao campo conservador.
No Brasil
O Partido Liberal (PL), legenda da família Bolsonaro, é apontado pela Observatória como o partido que mais apresenta projetos de lei anti-LGBTQIA+ no Brasil.
Nas eleições deste ano, a sigla elegeu 121 deputados federais e se consolidou como a maior bancada da Câmara. Entre os eleitos estão Nikolas Ferreira (MG) e Lucas Pavanato (SP), ambos com mais de 3 milhões de votos e conhecidos por seus recorrentes discursos transfóbicos.
Entre janeiro de 2019 e maio de 2026, a Observatória identificou, nas Assembleias Legislativas, 81 projetos de censura escolar, incluindo propostas contra a chamada “ideologia de gênero”.
Outros 70 projetos tratam do uso de banheiros, com restrições ao acesso conforme a identidade de gênero. Há ainda 40 propostas que buscam limitar a participação de atletas trans em competições esportivas.
Na área da saúde, foram identificados 39 projetos relacionados ao processo transexualizador, com restrições ao atendimento de menores de idade. Outros 17 tratam da definição de gênero nas políticas públicas.
Na Câmara dos Deputados, foram apresentados outros 20 projetos sobre atletas trans, 19 relacionados ao processo transexualizador, 18 sobre censura escolar, 13 sobre definição de gênero e 12 sobre banheiros.
Ofensiva antitrans
A ofensiva contra os direitos das pessoas trans não se limita aos Estados Unidos. Na Europa e na América Latina, governos, parlamentos e tribunais também protagonizam disputas sobre o reconhecimento da identidade de gênero, o acesso à saúde e a participação de pessoas trans na vida pública.
Na Europa, a organização TGEU identificou retrocessos nos direitos trans e alertou que essas restrições também representam riscos para a democracia. “Os direitos das pessoas trans não estão avançando por causa dos governos. Estão avançando porque pessoas trans, ativistas e comunidades estão forçando mudanças apesar de todas as dificuldades”, afirmou Isa Nico Borrelli, presidente da entidade, em maio.
Na Eslováquia, o Parlamento aprovou, em 2025, uma mudança constitucional que reconhece apenas os sexos masculino e feminino. No Reino Unido, a Suprema Corte decidiu que a definição de mulher na legislação de igualdade se refere ao sexo biológico, decisão que provocou protestos e abriu uma disputa sobre o acesso de pessoas trans a determinados espaços e serviços.
Na América Latina, o governo de Javier Milei, na Argentina, chegou a proibir, por decreto, o acesso de menores de 18 anos aos tratamentos hormonais previstos na Lei de Identidade de Gênero. A medida foi suspensa pela Justiça em julho deste ano, após uma ação de organizações LGBTQIA+.
Em entrevista à Agencia Presentes, a ativista Alba Rueda afirmou que “as infâncias foram a primeira linha de ataque do governo de Javier Milei contra a comunidade trans”.
Um bom desempenho dos republicanos nas midterms, após uma campanha marcada pelo investimento em anúncios contra os direitos trans, pode dar novo fôlego a parlamentares conservadores e movimentos antitrans no Brasil. O resultado das urnas norte-americanas poderá ser usado por esses grupos como argumento para impulsionar propostas que já tramitam no Legislativo brasileiro.