O médico Vinicius Borges, do Doutor Maravilha. Foto: Divulgação
O médico Vinicius Borges, do Doutor Maravilha. Foto: Divulgação
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Restringir educação sexual afeta prevenção ao HIV, alerta Doutor Maravilha

A restrição ao debate sobre sexualidade nas escolas pode dificultar o acesso de adolescentes e jovens a informações sobre prevenção ao HIV, avalia o infectologista Vinicius Borges, conhecido nas redes sociais como Doutor Maravilha. Em entrevista à Diadorim no Camarote Pride, durante a Parada do Orgulho LGBT+ de São Paulo, o médico afirmou que a educação sexual não estimula o início precoce da vida sexual, mas contribui para que jovens tomem decisões mais informadas sobre autocuidado e prevenção.

Borges participou de uma ação promovida pela farmacêutica Blanver no espaço, voltada ao debate sobre prevenção ao HIV e saúde sexual.

Para o médico, o fato de os jovens terem amplo acesso às redes sociais não significa que recebam informações qualificadas sobre sexualidade. “Você ter conteúdo não quer dizer que a informação vai ser captada, absorvida e colocada em prática”, disse.

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O especialista criticou iniciativas que buscam restringir debates sobre sexualidade no ambiente escolar e defendeu que as escolas sejam espaços de informação e acolhimento, respeitando a faixa etária dos estudantes.

“A gente não fala de educação sexual em casa, muito menos com foco LGBT. Que pai e que mãe vão dar conselhos para o filho sobre prevenção numa relação entre dois homens, de autocuidado, de PrEP, de prevenção, de uso de camisinha? Não existe isso”, afirmou.

Segundo Borges, a dificuldade em acessar escolas para palestras e atividades educativas evidencia a resistência ao debate sobre sexualidade e a associação equivocada entre educação sexual e estímulo precoce à atividade sexual.

“Falar de prevenção não estimula a sexualidade precoce. Na verdade, empodera a pessoa a se cuidar mais”, argumentou o Doutor Maravilha.

Para ele, impedir o debate sobre sexualidade pode dificultar o acesso de adolescentes e jovens a informações fundamentais sobre autocuidado e prevenção combinada.

O alerta ocorre em um momento em que a censura escolar se tornou o principal foco dos projetos de lei anti-LGBTQIA+ no país. A Observatória, monitor legislativo da Diadorim, mostra que propostas voltadas à restrição de conteúdos sobre diversidade sexual e de gênero no ambiente educacional responderam por 25% dos projetos apresentados em 2025 e por 33,3% das iniciativas registradas nos cinco primeiros meses de 2026.

Jovens concentram novos casos de HIV

A preocupação de Vinicius Borges com a educação sexual é reforçada pelos dados mais recentes do Ministério da Saúde. O Boletim Epidemiológico HIV e Aids 2025, divulgado em dezembro do ano passado, mostra que pessoas de 15 a 24 anos seguem entre os grupos mais afetados pela epidemia no país.

Entre 1991 e setembro de 2025, foram registrados 175.803 casos de infecção pelo HIV nessa faixa etária, o equivalente a 25,7% de todos os casos notificados no Brasil. Ao longo da série histórica, 66% das infecções entre pessoas de 15 a 24 anos ocorreram entre indivíduos do sexo masculino.

Em 2024, homens de 20 a 29 anos responderam por 44,7% dos novos casos registrados no país. Entre adolescentes do sexo masculino de 15 a 19 anos, a proporção foi de 5,2%.

O boletim também aponta forte concentração da epidemia entre homens jovens. Na faixa de 20 a 29 anos, a razão foi de 42 homens para cada dez mulheres diagnosticadas com Aids em 2024. Entre adolescentes de 13 a 19 anos, foram 22 homens para cada dez mulheres.

Entre os homens jovens, a principal via de transmissão segue sendo a sexual, especialmente entre homens que fazem sexo com homens (HSH). Em 2024, essa categoria respondeu por 59,8% dos casos de Aids entre adolescentes de 13 a 19 anos e por 56% dos registros entre pessoas de 20 a 29 anos.

Apesar da alta incidência, houve redução na mortalidade. Entre 2014 e 2024, a taxa de mortalidade por Aids entre adolescentes de 15 a 19 anos caiu 57,1%.

No plano internacional, relatório divulgado pelo Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids (Unaids) mostra que as novas infecções pelo HIV entre jovens de 15 a 24 anos caíram 54% entre mulheres e 45% entre homens no mundo entre 2010 e 2025.

Apesar da redução, adolescentes e mulheres jovens seguem entre os grupos mais vulneráveis à epidemia. Em 2025, cerca de 160 mil mulheres de 15 a 24 anos adquiriram HIV em todo o mundo. O relatório alerta ainda que estigma, discriminação e leis punitivas continuam dificultando o acesso aos serviços de prevenção e tratamento.

A agência das Nações Unidas destaca ainda que o Brasil está entre os 54 países que se comprometeram a ampliar os investimentos públicos destinados à resposta ao HIV a partir de 2025. O país foi incluído na categoria de aumento de até 10% no financiamento doméstico e integra o grupo de nações que buscam fortalecer modelos sustentáveis de resposta à epidemia até 2030.

O documento também chama atenção para novas tecnologias de prevenção, como o lenacapavir, medicamento injetável de longa duração para PrEP (profilaxia pré-exposição), apontado como uma estratégia promissora para ampliar a proteção de grupos mais vulnerabilizados.

Interiorização da prevenção

Além dos desafios relacionados à educação sexual, Borges afirma que o país ainda enfrenta desigualdades regionais no acesso às estratégias de prevenção ao HIV.

“Quando a gente fala de prevenção ao HIV no Brasil, a gente ainda está falando muito dos grandes centros: São Paulo, Rio, Belo Horizonte, Recife. E, principalmente, do Sudeste”, afirmou.

Nascido no interior de Minas Gerais, o médico diz que as estratégias precisam considerar as diferentes realidades do país.

“Não adianta você ter PrEP e 40% dela estar em São Paulo. Aqui tem no metrô, tem no SAIS, tem tudo. Mas e o interior do Brasil? E os homens gays, as mulheres trans, as pessoas LGBT que estão lá?”, questionou.

Para ele, ampliar o acesso às políticas públicas fora das capitais e garantir representatividade nas ações de prevenção são medidas fundamentais.

HIV é pauta universal, mas exige equidade

Ao comentar a cobertura jornalística sobre HIV, Borges defendeu que o tema deve ser tratado como uma pauta universal de saúde e direitos humanos. “Falar de HIV é falar de direito à saúde, direito à prevenção, ou seja, é falar de direitos humanos”, afirmou.

O médico ressaltou, no entanto, que o princípio da equidade do Sistema Único de Saúde (SUS) exige estratégias específicas para grupos mais vulnerabilizados.

“Uma travesti negra na periferia tem muito mais chance de morrer de Aids do que um homem cis branco hétero”, disse.

Borges citou ainda que mulheres heterossexuais negras em São Paulo têm três vezes mais chance de morrer de Aids do que homens heterossexuais brancos. “É uma pauta que atravessa todo mundo, mas alguns grupos sofrem mais.”

Integrante do comitê de prevenção do Ministério da Saúde, Borges destacou que o governo trabalha atualmente com o conceito de “populações-chave”, definido como grupos que necessitam de estratégias específicas de cuidado. “É universal, mas respeitando a equidade”, resumiu.

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