
Combate à LGBTfobia requer “esforço contínuo” e análise de contexto, diz representante dos Países Baixos
Em visita ao Brasil para a conferência da Workplace Pride em São Paulo, o secretário-geral adjunto do Ministério das Relações Exteriores dos Países Baixos, Hans Docter, reforçou que o combate à violência contra a população LGBTQIA+ requer “esforço contínuo” e também análise das particularidades de cada país.
Para Docter, as organizações locais devem encabeçar a luta pela população LGBTQIA+ e o eventual apoio de projetos internacionais deve considerar o contexto de cada sociedade. Em Gana, por exemplo, a Embaixada serviu de espaço seguro para reuniões do movimento. Já na Hungria, o foco foi totalmente outro: de dar visibilidade ao movimento, explicou o secretário-geral adjunto para a Agência Diadorim.
Docter acredita que a recente escolha de Rob Jetten, primeiro-ministro dos Países Baixos abertamente gay, é um importante passo para normalizar e dar mais visibilidade para a população LGBTQIA+ em todos os espaços da sociedade.
“Sou também parte da comunidade LGBTQIA+ e estou muito orgulhoso de trabalhar para um governo que está realmente comprometido com a igualdade para todos, criando especialmente um ambiente de trabalho seguro. No papel de liderança que tenho agora, também posso contribuir pessoalmente para melhorar esses ambientes, para ter certeza de que todos podem ser eles mesmo no lugar de trabalho”, relata Hans Docter.
Confira, a seguir, a entrevista:
AGÊNCIA DIADORIM – Os Países Baixos historicamente estiveram na vanguarda dos direitos das pessoas LGBTQIA+. Há alguma experiência ou política atual que você considere especialmente interessante ou exitosa sobre o tema e que poderia inspirar nossos governantes?
HANS DOCTER – Bem, há algumas semanas elegemos Rob Jetten, o primeiro-ministro abertamente gay. Eu acho que é um passo muito importante para normalizar e criar mais visibilidade para pessoas da comunidade LGBTQIA+ em todos os espaços da sociedade. Eu acho isso muito inspirador. No Brasil, talvez, nas próximas eleições presidenciais, esperamos que haja um candidato gay ou transgênero para que o Brasil também seja liderado por alguém da nossa comunidade. Mas, ok, isso talvez seja um sonho. No nível mais prático, nós trabalhamos muito recentemente, especialmente sobre problemas de segurança nas ruas, nos espaços de trabalho e na legislação, também. Trabalhamos com todos os profissionais do setor, com a liderança sênior dessas empresas, com a polícia e também com pessoas que conhecem as necessidades da comunidade, as ameaças e como contê-las. Eu sei que o Brasil também está lidando com esses assuntos de violência contra a comunidade para que tenham mais segurança. Eu acho que nos Países Baixos temos esse bom exemplo, mas é preciso ter um esforço contínuo. Não é que tudo seja perfeito no nosso país. Nós também vimos, ao longo dos anos, um aumento do movimento mais conservador nos Países Baixos, que não é tão positivo sobre os direitos da nossa comunidade. E você também vê isso online, com a circulação do discurso de ódio. Por isso, precisamos continuar trabalhando duro para ficarmos no mesmo lugar que estamos.
AGÊNCIA DIADORIM: O sistema internacional de proteção dos direitos humanos passa por uma de suas piores crises, com o esvaziamento político e orçamentário de diversos órgãos e fóruns multilaterais. Como você enxerga essa situação e como isso pode impactar na defesa dos direitos de minorias e grupos marginalizados?
HANS DOCTER: A luta pelos direitos iguais ocorre em muitos níveis. Na Organização das Nações Unidas, por exemplo, o debate foi muito importante para criar uma discussão global sobre a promoção dos direitos humanos. E sim, vemos que esse sistema está sob ameaça no momento, não só do atual governo dos Estados Unidos, mas de muitos países. Eles parecem se organizar muito mais efetivamente. E os países que promovem os direitos, como a Holanda e o Brasil, nós temos que trabalhar duro para, novamente, ficar no mesmo lugar. Eu estou realmente impressionado com a liderança do Brasil na ONU, estamos tentando fazer o mesmo, mas a liderança do Brasil é muito importante.

AGÊNCIA DIADORIM: Diversos países ainda criminalizam a população LGBTQIA+. Como os Países Baixos e outras nações aliadas da nossa comunidade podem atuar para ajudar a mudar este cenário? Como fazer essa mudança respeitando as particularidades e diversidade cultural de cada país?
HANS DOCTER: Eu acho que, ultimamente, cada sociedade precisa se organizar do jeito mais confortável possível. A diversidade é algo tão profundamente humano. Nós somos todos diferentes. Por todo o mundo, nós somos todos diferentes. Então, são as organizações locais que precisam liderar a luta em cada sociedade. E a forma como nós apoiamos essas organizações não é só chegando com nossos projetos internacionais, mas sim, entendendo o contexto e perguntando: o que vocês precisam e como nós podemos ajudar? Quais são as prioridades?
Eu trabalhei em Gana, por exemplo, na época em que o governo era favorável a promover os direitos da comunidade LGBTQIA+, mas a sociedade era profundamente conservadora. Então, o primeiro passo que o governo local deu foi trabalhar com a polícia. E eles fizeram isso através de líderes locais. Mães, muitas vezes, líderes mulheres, que falaram com a polícia e disseram: ‘Olha, isso é o que está acontecendo, são nossos filhos. Eles deveriam fazer isso de uma forma diferente. Poderíamos fazer uma espécie de pacto para proteger os direitos da comunidade LGBTQIA+’. E isso foi feito com muita calma, com cuidado com a cultura do país. E a única coisa que fizemos foi oferecer dinheiro para os eventos, para as reuniões, ou um espaço seguro onde eles poderiam se encontrar. Isso porque especialmente a liderança da polícia não queria ir a um evento organizado em espaços LGBTQIA+, mas para eles era ok ir a uma embaixada, onde as pessoas da comunidade poderiam se encontrar, por trás das cenas.
Isso é algo que você pode fazer. Em outros países, como na Hungria, a comunidade queria organizar uma festa de orgulho. Na capital, havia uma maioria que apoiava esses direitos, mas o governo estava trabalhando contra eles. E ali era mais adequado estar visível com líderes políticos de outros países, para se juntar com a comunidade. Então, estar presente, com proximidade e visibilidade junto a organizações locais era o mais adequado. Em nosso trabalho, nós não vamos dizer que as coisas devem ser feitas de tal jeito, que essas são as leis, não é assim que funciona. Nós seguimos o que está acontecendo localmente e o que é culturalmente adequado para mover a agenda para a igualdade. Porque esse é o objetivo final, sempre, igualdade de direitos.
AGÊNCIA DIADORIM: Quais são as perspectivas sobre a cooperação entre Brasil e Países Baixos para os próximos anos? Há alguma parceria com o governo brasileiro no campo dos direitos humanos?
HANS DOCTER: Sim, eu também tive reuniões em Brasília e havia uma delegação brasileira que também veio para a Holanda. Então, nós já estamos intercambiando experiências e comparando políticas e o que podemos aprender um com o outro. Eu acredito que o que podemos aprender na Holanda com o jeito brasileiro é um foco muito maior na diversidade e diferentes comunidades, e como se engajam em todas as culturas, mesmo dentro de um mesmo país. E isso é realmente uma grande lição para nós. Mas a nossa principal luta é a luta conjunta no nível global, no nível da ONU, para melhorar o sistema e abrir espaço para podermos continuar promovendo a agenda.