COP30: Três ativistas LGBTQIA+ mostram que cuidar do planeta também é resistir
Fausto, Irlan e Maria Luiza são pessoas LGBTQIA+ ativistas do meio ambiente.
meio ambiente

Três ativistas LGBTQIA+ mostram que cuidar do planeta também é resistir

Da Caatinga à Amazônia, ativistas LGBTQIA+ levam suas vivências e lutas por justiça climática à COP30

Foi através de mutirões, realizados ao longo de cerca de seis meses, que uma casa de taipa foi erguida na zona rural de Buíque, divisa entre o Sertão e o Agreste de Pernambuco. Primeiro o telhado, depois as paredes, tecidas com madeira da caatinga e o barro do próprio terreno, que tinha a mistura ideal de areia e argila. Muitas mãos se envolveram na construção: gente da comunidade e de fora, recebida com a comida preparada embaixo de um pé de juazeiro.

Daquele trabalho intenso e coletivo nasceu o Ecossítio Catimbau, espaço de convivência e integração com o meio ambiente idealizado pelo ativista e produtor cultural Fausto Paiva, 35. Homem gay e afroindígena, ele realiza no local ações que ligam autoestima comunitária e desenvolvimento socioambiental.

O Ecossítio fica dentro do Parque Nacional do Catimbau, unidade de conservação do bioma da caatinga, que abriga chapadões, cânions, cavernas e sítios arqueológicos com pinturas rupestres de mais de seis mil anos. A caatinga, único bioma exclusivamente brasileiro, ocupa cerca de 10% do país e se estende por nove estados –oito do Nordeste (com exceção do Maranhão) e o norte de Minas Gerais. Mesmo abrigando cerca de 30 milhões de pessoas, sofre com desmatamento e desertificação. Por isso, no Catimbau, o manejo sustentável e a recuperação do solo são essenciais para conter a degradação e manter viva a relação entre natureza e cultura –eixo do trabalho de Fausto.

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Foi nesse cenário, de pedras antigas e vegetação resistente, que ele se reconheceu parte do território. Nascido e criado no bairro de Casa Amarela, na zona norte do Recife, Fausto chegou ao Sertão por um “arrebatamento”, como define. Convidado para conhecer o São João de Arcoverde, em 2016, encantou-se pela região e decidiu: “vou ficar por aqui”. E ficou. Desde então, virou caatingueiro.

A vivência com a agroecologia levou Fausto a comprar um terreno dentro do parque. Ali ergueu o Ecossítio e iniciou o trabalho com comunidades indígenas e quilombolas, unindo sustentabilidade e cultura local. Hoje ele acumula mais de 30 projetos, entre eles o Rekaatinga Catimbau, criado em parceria com a Associação Kapiwara.

O projeto se divide em três frentes: o plantio de mudas nativas da caatinga nos roçados das famílias, que aproxima floresta e lavoura; a geração de renda com a criação de abelhas e produção de mel, própolis e cera; e o fortalecimento cultural, com oficinas das mulheres louceiras, mestres populares nas escolas e festas tradicionais.

Fausto Paiva no evento Caatinga Climate Week.

Foto: Laís Domingues

Essa experiência lhe abriu novas portas. Em agosto, Fausto foi selecionado entre os 40 jovens brasileiros do Fórum Convergências Brasil–França 2025, realizado em Brasília. O evento celebrou os 200 anos de relações diplomáticas entre os dois países e reuniu jovens líderes para discutir soluções para desafios globais. “Estar nesse espaço foi algo muito importante pra mim. Acho que tem a ver com autoestima e reconhecimento profissional”, diz.

Na semana passada, o ativista chegou a Belém para participar da 20ª Conferência da Juventude sobre Mudanças Climáticas das Nações Unidas (COY20). O encontro reuniu jovens de todo o país para discutir propostas por um futuro sustentável. Selecionado como delegado, Fausto diz ter visto na experiência uma oportunidade de “amplificar as vozes da juventude”. Agora, ele acompanha com expectativa as discussões da COP30 (Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas), que começa nesta segunda-feira (10 nov.) e segue até dia 21.

Fausto diz que a vivência no Catimbau também o transformou. Foi ali que aprendeu a andar descalço, conhecer as plantas e se relacionar de outro modo com a natureza. À medida que se transformava, transformava também o entorno. Assumir-se como homem gay num espaço de liderança, afirma, é romper com os estereótipos que ainda cercam as vivências LGBTQIA+.

“Por meio de tudo isso, eu consegui desconstruir muitas coisas no meu próprio núcleo familiar. Minha casa, o Ecossítio, é onde recebo minhas amigas travestis, meus amigos viados, meus amigos militantes. Eu construí um espaço onde minha mãe é super amiga da minha amiga trans. Mostro aos mestres e mestras a foto do meu namorado no meu celular. E é nesse lugar de naturalizar que eu vou e jogo: sou bicha!”

A comunicadora Irlan Paixão, 30, de Macapá

Foto: Reprodução/Instagram

Recriando um lugar possível

Ao norte do país, a comunicadora Irlan Paixão, 30, também reflete sobre o que significa ser uma pessoa LGBTQIA+ na defesa do meio ambiente. Ocupar esses espaços como mulher trans, diz ela, ainda é um ato solitário –e, justamente por isso, uma forma de abrir caminho para outras.

Natural de Macapá, cidade cortada pela linha do Equador, ela encontrou na comunicação e na arte ferramentas de transformação social. Com experiência em organizações e iniciativas sociais, atuou em coletivos como a Palmares Lab, grupo que desenvolve trabalhos de enfrentamento à crise climática, e a Utopia Negra, um coletivo de comunicação popular no Amapá. Hoje é articuladora da Casa das Ongs, projeto da Abong (Associação brasileira das ONGs) que conecta movimentos e redes em torno da justiça climática.

Em outubro, Irlan participou de um dos encontros pré-Cúpula dos Povos, em Abaetetuba (PA), que reuniu lideranças de diferentes territórios para formação e articulação com foco na COP30. Agora, está em Belém para acompanhar a conferência como articuladora da Abong.

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Além da militância institucional, Irlan também se reconhece como “artivista”. Através de diferentes linguagens, seja pintura, audiovisual e fotografia, ela busca retratar toda a magnitude que enxerga no seu próprio território. Os tons e o balanço do Rio Amazonas, que banha o Macapá, como ela destaca com orgulho, ganham outra vida a partir dos trabalhos da comunicadora.

O Amapá, com pouco mais de 730 mil habitantes, é um estado moldado pelo bioma amazônico –de florestas tropicais e áreas litorâneas a trechos de cerrado. Mesmo com extensas zonas de proteção ambiental, os conflitos socioambientais se intensificam, como mostrou a recente decisão do Ibama, em 20 de outubro, de autorizar a Petrobras a perfurar petróleo na Foz do Amazonas. Irlan acompanha de perto esse debate: para ela, o risco não é apenas ecológico, mas simbólico –“é sobre o que a gente escolhe preservar”, diz.

Diante desse cenário, entre a comunicação, a arte e o engajamento político, Irlan enxerga na própria presença uma forma de resistência.

Irlan Paixão fala do Amapá com orgulho. Diz que o tempo no estado “é outro” e que as pessoas “ainda têm tempo para algumas coisas, como cozinhar”. Quando alguém cozinha por lá, afirma, “cozinha com a alma, com o coração, e quer te entregar o melhor”. Para ela, o povo amapaense é “extremamente acolhedor, que abraça muito, que se apaixona visceralmente, que se entrega”.

A comunicadora também destaca a riqueza cultural e os monumentos locais, em especial o Marco Zero, que marca a linha do Equador. “A gente literalmente divide o mundo bem aqui. É muito doido. Eu sinto que moro num lugar muito, muito precioso”, declara, bairrista convicta, direto do meio do mundo.

Maria Luíza Gonçalves, do Recife, é fundadora do Clima Queer

Foto: Reprodução/Instagram

A diversidade na COP30

“Enquanto pessoa LGBTQIA+, você desde sempre entende muito bem o que é violência. E a pauta climática é muito tecnocrata –ela não fala sobre quem sofre mais com as mudanças climáticas, mas isso é essencial”, afirma a ativista Maria Luíza Gonçalves, 29, que, a partir dessa inquietação, fundou o Clima Queer.

Formado por pessoas de diferentes partes do Grande Recife, o coletivo promove debates e formações sobre justiça climática a partir de vivências dissidentes. É um projeto itinerante de pesquisa, educação e articulação ambiental que, por meio de oficinas e ações em comunidades, busca incluir as vozes das populações mais vulneráveis diante das mudanças do clima.

“A gente traz para o debate esses corpos e vivências dissidentes para que a justiça ambiental seja realmente interseccional”, diz Maria Luíza.

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Pesquisadora em direitos humanos pela UFPE (Universidade Federal de Pernambuco), ela destaca a importância de levar o debate para dentro da academia. Diz também que foi desafiador ocupar esse espaço como mulher bissexual e vinda de Barra de Jangada, em Jaboatão dos Guararapes, na Região Metropolitana do Recife –um território marcado por vulnerabilidades. “Deixar de ser apenas objeto de estudo e fazer ciência baseada nas próprias vivências é uma ferramenta de resistência”, afirma.

Maria Luíza diz esperar que a COP30 fortaleça conexões entre organizações e territórios. Ela não participará presencialmente do evento, mas o Clima Queer será representado por uma integrante da equipe. “O que mais espero é a troca com quem está pensando o clima, principalmente a juventude. Acho que não dá pra falar sobre mudança real sem falar da juventude”, afirma.

Mesmo com a presença de grupos diversos, no entanto, ela avalia que a agenda LGBTQIA+ ainda ocupa pouco espaço nos debates climáticos. Segundo a ativista, a maioria das discussões acontece em eventos paralelos à conferência, como a roda de conversa “Corpos, Territórios, Culturas e Resistências: Vivências LGBTQIAPN+ e Justiça Climática”, promovida pela Abong.

Além disso, ativistas LGBTQIA+ criaram, dentro da Constituinte de Gênero e Clima da ONU, um grupo de trabalho sobre diversidade sexual e de gênero. O coletivo, com cerca de 50 integrantes de diferentes países, prepara um documento e uma marcha para dar visibilidade às vivências LGBTQIA+ nos debates climáticos.

“É urgente que a diversidade dos corpos e experiências seja entendida como parte estrutural da justiça climática, e não apenas como tema lateral ou de inclusão”, afirma. “Colocar essa discussão no centro é reconhecer que o clima também é uma questão de direitos, de pertencimento e de quem tem o poder de decidir sobre o futuro.”

Para Maria Luíza, essa mudança parte, sobretudo, da afirmação de si. “Nós existimos há muito tempo”, diz a pesquisadora. “E vamos continuar existindo.”

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