ONU Mulher/Ryan Brown
internacional

Ofensiva dos EUA sobre gênero fracassa e Brasil lidera reação

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Os Estados Unidos sofreram uma dupla derrota na ONU ao tentar alterar o conceito de gênero durante a 70ª sessão da Comissão sobre a Situação da Mulher (CSW70), realizada na sede das Nações Unidas, em Nova York. A ofensiva foi barrada com articulação liderada por países como o Brasil, que atuou para bloquear uma resolução paralela após a rejeição das emendas norte-americanas.

Na negociação do texto principal, conhecido como Agreed Conclusions, os EUA propuseram substituir o termo “gênero” por “sexo”, restringir referências a direitos sexuais e reprodutivos e revisar conceitos consolidados desde as Conferências do Cairo (1994) e de Pequim (1995). As mudanças não avançaram.
Diante do impasse, o documento foi levado à votação — algo raro na CSW, que costuma decidir por consenso. O resultado isolou os Estados Unidos: o país foi o único voto contrário, enquanto a maioria aprovou o texto.

Após a derrota, a delegação norte-americana apresentou, em 19 de março de 2026, uma proposta de resolução própria para retomar os pontos rejeitados. O texto afirmava que “gênero” deveria ser entendido como “homem e mulher”, atribuindo essa definição à Plataforma de Pequim.

A interpretação não corresponde ao documento original. O Anexo 4 da Plataforma afirma que o termo deve seguir o uso adotado pelas Nações Unidas. A definição restrita foi apresentada pelo Vaticano em uma reserva, e não integra o consenso internacional.

A proposta gerou reação imediata. O Women’s Rights Caucus, que reúne mais de 900 organizações feministas, afirmou que se tratava de uma tentativa de “reescrever a história”.

O texto dos EUA não chegou a ser votado. Brasil e Bélgica lideraram a apresentação de uma “moção de não ação”, aprovada pelos países-membros, que bloqueou a tramitação da proposta.

Delegações defenderam a manutenção dos acordos construídos nas últimas décadas e reafirmaram a Plataforma de Pequim como referência para políticas de igualdade de gênero.

Mesmo sob disputa, o documento final da CSW70 manteve compromissos como a promoção da igualdade de gênero, o enfrentamento à violência contra mulheres e meninas, o acesso à justiça e a adoção de políticas baseadas em direitos humanos. O texto também inclui o reconhecimento de grupos historicamente negligenciados.

O episódio expõe o isolamento dos Estados Unidos e reforça a resistência internacional a mudanças unilaterais em temas de gênero. Também evidencia a intensificação da disputa global sobre direitos das mulheres, diversidade e políticas reprodutivas.

A Comitiva Trans e Travesti Brasileira — formada por Gilmara Cunha (Grupo Conexão G), Bruna Benevides (ANTRA), Vida Guzzo (Intersexo Brasil), Luana Barbosa e João Apuã (Pajubá Tech) e Victoria Dandara (Council for Global Equality) — acompanhou as negociações e atuou junto a autoridades brasileiras e internacionais. O grupo também publicou posicionamento sobre o caso e destacou o papel do Brasil na articulação para barrar a proposta.

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