
Martírio e beleza: como a pressão estética afeta e adoece homens gays
Do shape perfeito exibido nas redes aos transtornos alimentares e à rejeição em aplicativos, o corpo gay se torna alvo constante de cobrança.
Na pintura do barroco italiano Guido Reni, no século 17, São Sebastião é retratado amarrado em uma árvore, com as duas mãos atadas sobre a cabeça e um torso nu musculoso atravessado por três flechas. O corpo está coberto apenas na parte inferior, com um pano branco, revelando o início da púbis definida do soldado romano.
Trezentos anos depois, no outro lado do mundo, um menino ficou hipnotizado ao encontrar uma reprodução da mesma pintura na biblioteca do pai. O sofrimento de São Sebastião retratava uma situação erótica quase inconcebível. Foi o suficiente para o despertar gay do jovem Yukio Mishima (1925-1970), que se tornaria um dos principais autores japoneses contemporâneos.
O episódio com São Sebastião foi narrado no livro autobiográfico “Confissões de uma Máscara” e não só levou Mishima a compreender a própria orientação sexual, mas também moldou toda a ideia do escritor em torno do corpo masculino –sempre musculoso e forte.
A obsessão pelo corpo masculino não se resumia apenas aos escritos de Mishima. Ao longo dos anos 1960, o escritor se dedicou a uma rotina rígida de exercícios, o que lhe garantiu um físico definido e musculoso. Nessa época, aliás, ele encenou a mesma imagem que o impactou na juventude: a de São Sebastião, atado e flechado no tronco de uma árvore.
Mishima não foi o único a associar o ideal tradicional do corpo masculino à homossexualidade. Pouco tempo após o suicídio público do escritor em Tóquio, o finlandês Touko Valio Laaksonen (1920-1991) começava a publicar revistas com ilustrações pornográficas de homens extremamente musculosos e viris, trajando uniformes de couro e se relacionando entre si. Touko ficou conhecido pelo pseudônimo de Tom of Finland.
A masculinidade agressiva dos homens de Tom foi transgressora para a época e se tornou um dos símbolos da liberação gay dos anos 1970. Os personagens variavam entre soldados, policiais, marinheiros, motoqueiros e operários, funções associadas à heterossexualidade tradicional. No entanto, eram corpos que só existiam no papel: torso gigante, cintura fina, pele sem pelos e pênis enormes.
Hoje, os corpos impossíveis de Tom of Finland saíram do papel e piscam nas telas dos smartphones, onde homens em carne e osso se filmam levantando peso para milhares de espectadores nas redes sociais.
Com o advento da tecnologia e o avanço da medicina, corpos impossíveis se tornaram realidade e afetam milhões de homens da comunidade gay em busca de um padrão de beleza que exige sacrifícios –e muito sofrimento– para ser conquistado.


O “padrão” inalcançável
Em 20 de julho, Thiago Parcelles fez uma postagem no X relatando que alguns amigos estavam considerando não ir para uma festa “por conta do shape”. O evento em questão era a Festa da Lili, uma megaprodução de tribal house que acontece em Brasília, reunindo milhares de pessoas –grande parte do público é composta por gays de corpo sarado, apelidados de “barbies” dentro da comunidade.
Para surpresa de Parcelles, a postagem viralizou. Entre comentários maldosos e piadas, ficou claro que, para muitos gays, a questão da aparência não é apenas uma futilidade, mas um requisito para se sentirem seguros na hora de sair de casa.
“Nós gays conseguimos ocupar muitos lugares, exceto o nosso próprio corpo”, conta Parcelles, biólogo, 34 anos, de Tacaratu, cidade do Sertão de Pernambuco, a 453 quilômetros do Recife. “A gente está sempre buscando uma validação inalcançável.”
Parcelles sabe que a aparência é uma questão relevante entre gays e, por isso, sempre teve problemas de aceitação. Anos atrás, estava com sobrepeso e mudou radicalmente o estilo de vida ao incorporar uma rotina espartana de musculação e corrida quase todos os dias da semana. Com isso, conquistou o famoso tipo físico definido, mas ainda estranha quando é reconhecido dessa forma.
“Qualquer elogio eu já acho que é deboche”, afirma. Por conta disso, já passou por períodos de restrição alimentar severa. “Em 2021, lembro de ter passado 48 horas sem comer para tirar uma foto de sunga”, relembra. “A foto bateu 2 mil likes.”



“Não aceito gordos”
No mundo gay, o tipo de corpo não só pode influenciar os relacionamentos, mas também define o tipo de rolê frequentado. Se existem as festas de gays sarados, existem também as festas dos ursos (homens grandes e peludos), dos twinks (jovens magros e com poucos pelos) e outros arquétipos.
A postagem também chegou a profissionais especializados em transtornos alimentares, como Muriel H. Depin, nutricionista e diretor de comunicação da AstralBR (Associação Brasileira de Transtornos Alimentares). Para o especialista, a obsessão pelo físico não tem uma causa única: pode ser um reforço da masculinidade, para compensar a homofobia sofrida desde a infância, ou um mecanismo de defesa para evitar a hostilidade.
“Não existe uma resposta única para explicar a pressão estética na comunidade gay, mas, definitivamente, nós acabamos construindo nossa identidade ao redor do corpo”, afirma. “É inegável, porém, a existência de uma certa misoginia ao rejeitar qualquer traço afeminado e associar a aceitação ao ser mais masculino.”
“O ideal de corpo mais definido e com um grau mais elevado de muscularidade parece ter tomado o lugar de todas as outras características da identidade.”Pedro Carvalho, doutor em Psicologia, profissional de Educação Física e professor da UFJF
Entre usuários de aplicativos de pegação gay, é comum ouvir relatos de rejeição por não ter o “shape” ideal ou por ser afeminado. Essa predileção ficou evidente na etnografia “Expressões de Masculinidades de Homens Usuários do Aplicativo Grindr”, em que três pesquisadores da UFBA (Universidade Federal da Bahia) coletaram dados no Grindr, na Bahia, entre julho de 2018 e junho de 2019.
O artigo, publicado em 2022, demonstrou uma hierarquia entre corpos gays na plataforma: o corpo musculoso era o mais valorizado, enquanto os dissidentes eram tratados como inferiores.
“O padrão é delineado por requisitos que se pautam na exposição exacerbada da força, do vigor, da estética, da sexualização e que apenas se relacionam com indivíduos que detenham as mesmas características, excluindo os demais da possibilidade de estabelecer quaisquer relações”, concluiu a pesquisa.
Parcelles reforça essa percepção a partir das próprias experiências amorosas. “Quando era gordinho, fui a uma festa e um cara veio ficar comigo, colocou a mão na minha barriga e saiu andando”, relembra. “É um tipo de pressão reforçada pela própria comunidade gay.”
O biólogo Thiago Parcelles, 34
Foto: Acervo pessoalHomens invisíveis
Com o crescimento da indústria “wellness” nas redes sociais, o corpo masculino passou a ser um território farto para explorar insatisfações com o fim de vender produtos e soluções rápidas. Termos como “cutting” e “bulking” (estratégias para perder gordura ou ganhar massa muscular), antes restritos ao vocabulário de atletas e fisiculturistas, viraram práticas comuns entre homens que não praticam nenhum tipo de modalidade atlética.
A exposição aos corpos sarados nas redes sociais, segundo o nutricionista Muriel H. Depin, também é bem maior hoje. “Lógico que antigamente os homens podiam comparar os corpos com o que viam nas revistas, filmes e na rua, mas ninguém anda sem camisa o tempo todo, e isso acontece o tempo inteiro nas redes”, conta.
Depin também alerta para uma naturalização perigosa de comportamentos transtornados entre homens. Esses comportamentos podem ir de dietas muito restritivas para emagrecer a tratamentos com medicamentos sem indicação médica e até o uso de anabolizantes –chamado de “ciclo”– para ganhar mais massa muscular em menos tempo.
A presença de transtornos alimentares na população masculina só passou a ser reconhecida a partir do final dos anos 1970, quando dados de pacientes homens começaram a aparecer em clínicas especializadas. Até hoje, muitos profissionais de saúde não reconhecem a possibilidade de pacientes masculinos estarem passando por um quadro de transtorno alimentar, seja anorexia nervosa, bulimia ou compulsão alimentar.
“Nós gays conseguimos ocupar muitos lugares, exceto o nosso próprio corpo. A gente está sempre buscando uma validação inalcançável.”Thiago Parcelles, 34
“Há um estigma nos transtornos alimentares, por serem associados a um problema feminino, e muitos homens em geral os atribuem apenas a gays”, conta a psicóloga Vanessa Tomasini, especialista em transtornos alimentares pelo Hospital das Clínicas (HC) da Faculdade de Medicina da USP. “Por isso, muitos pacientes acabam rodando por vários especialistas em busca de ajuda, mas nunca descobrem o diagnóstico por falta de conhecimento do profissional.”
No Brasil, há ainda outro problema somado à falta de qualificação: existem poucos locais especializados no SUS em transtornos alimentares. O principal deles é o Programa de Transtornos Alimentares do Instituto de Psiquiatria do HC da USP, o Ambulim, na capital paulista.
O Ambulim oferece tratamento ambulatorial para homens, mulheres e crianças com transtornos alimentares. Entre adultos, há uma separação por gênero. Como as mulheres são as que mais buscam tratamento, há subdivisão por tipo de transtorno, com grupos de anorexia, bulimia e compulsão alimentar. Já os homens são inseridos no mesmo grupo, independentemente do transtorno.
Na época em que atendia no Ambulim, Tomasini identificou que a busca pela magreza era um elemento comum entre pacientes homens e mulheres. A diferença, segundo ela, é que os homens procuram a magreza combinada com a muscularidade.
“O ideal de corpo mais definido e com um grau mais elevado de muscularidade parece ter tomado o lugar de todas as outras características da identidade. Porém, é um corpo difícil de conquistar, pois exige dietas e exercícios e leva a uma insatisfação permanente com a própria aparência”, explica Pedro Carvalho, doutor em Psicologia, profissional de Educação Física e professor da UFJF (Universidade Federal de Juiz de Fora).
Segundo pesquisas, um em cada três diagnosticados com anorexia nervosa são homens. A incidência pode ser até 15 vezes maior no caso de gays e bissexuais. A alta prevalência de transtornos alimentares, inclusive, se estende a toda a comunidade LGBTQIA+.
Instituto de Psiquiatria do HC da USP é um dos poucos, no Brasil, a oferecer atendimento especializado em transtornos alimentares pelo SUS
Foto: Marcos Santos/USP“Sofrimento é coisa de macho”
Um dos principais entraves no reconhecimento da questão dos transtornos alimentares e da pressão estética na comunidade gay é a rejeição da própria sociedade em relação ao corpo gordo.
A percepção geral é que um corpo gordo precisa ser combatido e eliminado, como se representasse fraqueza e problemas de saúde. Esse preconceito torna muito difícil identificar quando alguém está passando por problemas psicológicos motivados pela insatisfação com o próprio corpo.
Há ainda um agravante: muitos influenciadores digitais estão criando uma narrativa de que a conquista do corpo atlético é uma prova da própria masculinidade forte.
Em certos nichos virtuais influenciados por ideologias misóginas, o ideal fitness representa o ápice da performance masculina e é visto como uma forma de conquistar sucesso em todas as áreas da vida: trabalho, relacionamentos e finanças.
“A ideia masculina de não poder falhar nunca, de nunca poder estar abaixo de ninguém, de sempre ser o melhor de todos. É uma estratégia muito forte de marketing”, avalia Pedro Carvalho.