
Eleições 2026: o que os candidatos propõem para a população LGBTQIA+
Diadorim analisou mais de 200 programas de governo de candidatos à Presidência e aos governos estaduais e do Distrito Federal
Em outubro, vamos escolher quem vai governar o Brasil e os 26 estados e o Distrito Federal pelos próximos quatro anos. Essa escolha decide muito mais do que economia e segurança pública: decide também se a população LGBTQIA+ vai ter direito a existir com dignidade, segurança e representação nas políticas públicas do país.
E é nos planos de governo — documento oficial em que cada candidatura apresenta ao país suas propostas — que dá para ver quem está disposto a enfrentar a LGBTfobia e quem prefere fingir que o tema não existe.
Foi por isso que a Agência Diadorim foi atrás de todos os planos de governo apresentados ao TSE por quem disputa a Presidência e os governos estaduais. Analisamos cada documento em busca de propostas — ou da ausência delas — sobre orientação sexual, identidade de gênero e enfrentamento à violência contra pessoas LGBTQIA+.
O resultado expõe um Brasil dividido: de um lado, candidaturas que trazem propostas concretas de políticas públicas; de outro, um silêncio que também é uma forma de posicionamento. Veja abaixo o retrato completo.
Como apuramos
Baixamos, no site do TSE, os planos de governo de todas as candidaturas à Presidência e aos governos estaduais e do Distrito Federal. Em seguida, rastreamos nesses documentos termos ligados à população LGBTQIA+ como orientação sexual, identidade de gênero, homofobia, transfobia, pessoas trans, travestis, transexuais, pessoas não binárias, intersexo e nome social, entre outros.
Também buscamos palavras mais amplas — gênero, sexualidade, diversidade, discriminação — mas só as consideramos quando o trecho tratava diretamente da população LGBTQIA+.
Cada citação foi lida no contexto do plano. A classificação não levou em conta quantas vezes o tema aparecia, mas o que o texto de fato propunha: se era uma menção de passagem, uma promessa genérica ou uma medida concreta.
Duas ressalvas: dez candidaturas não tinham plano de governo disponível no site do TSE, e quatro documentos, por terem sido digitalizados, passaram por reconhecimento de texto — processo que pode gerar pequenas falhas de leitura.
Direitos LGBTQIA+
nos planos de governo
O que candidatos à Presidência e aos governos dos 26 estados e do Distrito Federal prometem — ou deixam de prometer — à população LGBTQIA+.
Metade dos planos não menciona a população LGBTQIA+
Dos 195 planos analisados, 99 não fazem nenhuma menção relevante à população LGBTQIA+. Outros 79 apresentam ao menos uma proposta específica, 15 trazem promessas genéricas e dois apenas citam o tema.
Os planos foram divididos em quatro categorias: não menciona, apenas menciona, proposta genérica e proposta específica. A classificação leva em conta o que cada plano propõe, e não o número de vezes que o tema aparece. Não foram encontradas propostas contrárias a direitos.
Na disputa presidencial, quatro dos 12 candidatos apresentam proposta específica; oito não fazem menção relevante.
Fora da conta: dez candidaturas não tinham plano disponível no site do TSE.
Encontre um plano

Marcelo Camargo/Agência Brasil
Partidos e regiões
A presença da pauta LGBTQIA+ nos planos varia muito de partido pra partido. PSTU, PT, UP e PSOL são os que mais trazem propostas específicas: o PSTU inclui o tema em quase todos os seus planos (15 de 16), o PT em dez dos 13, a UP em 13 de 18 e o PSOL em sete dos dez.
Do outro lado, tem partido que simplesmente não toca no assunto. Nenhum dos 19 planos do PCO menciona a população LGBTQIA+ de forma relevante. O mesmo vale pros nove documentos do Missão e os sete do Democrata. No Novo, só um dos oito planos cita o tema — e de forma bem genérica.
Entre os partidos grandes, PL e PSD ficam num meio-termo parecido: 4 de 13 planos do PL trazem propostas específicas, contra 5 de 13 no PSD. Já MDB, PSDB e Republicanos ficam mais pra trás — cada um com só dois planos detalhando o tema (de nove, oito e sete documentos, respectivamente). No DC, apenas um plano em sete chega a esse nível de detalhe.
Alguns partidos menores até aparecem com números altos, mas é preciso cautela: as bases são pequenas. PCB e PP trazem o tema em quatro dos cinco planos que lançaram; o PSB, em três de cinco; o PDT, em dois de três. Não dá pra comparar isso diretamente com partidos que disputaram eleições no país inteiro.
Olhando por região, as diferenças diminuem um pouco. O Nordeste lidera, com propostas específicas em 29 dos 66 planos. Sudeste (12 de 28), Sul (9 de 22) e Centro-Oeste (11 de 28) ficam em patamares parecidos. O Norte fica um pouco abaixo, com 14 de 40.
Mas dentro de cada região, os estados também variam bastante. Bahia (4 de 6) e Pernambuco (5 de 8) se destacam pela frequência do tema. Goiás soma três de cinco, e o Rio Grande do Sul, quatro de sete.
Já em Roraima, Mato Grosso e Rondônia, só um a cada cinco planos aborda o tema de forma específica. No Amazonas, são dois de sete. Vale lembrar: cada estado teve um número diferente de candidaturas, então essas comparações merecem cuidado.
Dois terços dos presidenciáveis não mencionam a população LGBTQIA+
Dos 12 candidatos à Presidência, a maioria não faz nenhuma menção relevante ao tema em seus planos de governo.
Quase metade dos planos estaduais não menciona a população LGBTQIA+
Dos 183 planos de governo estadual analisados, a maior parte não faz nenhuma menção relevante ao tema.
*Dos 183 planos analisados
Entre os candidatos à Presidência, o quadro é bem dividido. Oito não fazem nenhuma menção relevante à população LGBTQIA+: Clariana Barão (DC), Augusto Cury (Avante), Flávio Bolsonaro (PL), Renan Santos (Missão), Ronaldo Caiado (PSD), Rui Costa Pimenta (PCO), Wilson Grassi (Democrata) e Zema (Novo). Já Edmilson Costa (PCB), Hertz Dias (PSTU), Lula (PT) e Samara (UP) trazem ao menos uma proposta específica.
Edmilson Costa prevê políticas de emprego e acesso à saúde, moradia e educação para pessoas trans e travestis. Hertz Dias propõe casas de acolhimento, atendimento de saúde para pessoas trans, saúde integral sem discriminação e ações de emprego, qualificação profissional e geração de renda. Lula inclui medidas contra a violência voltada à população LGBTQIA+ e o combate à discriminação no mercado de trabalho. Samara propõe casas de acolhimento, saúde para pessoas trans, prevenção da violência, enfrentamento à LGBTfobia e acesso à moradia.
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entrarNos governos estaduais e do Distrito Federal, o quadro é mais fragmentado. Das 193 candidaturas mapeadas, 183 tinham plano disponível no site do TSE em 15 de agosto. Quase metade desses planos não menciona a população LGBTQIA+. Na outra metade, a maioria traz propostas específicas, mas também há casos de propostas genéricas ou que só citam o tema de leve.
Essa ausência aparece em todo o país: todos os 26 estados e o Distrito Federal têm pelo menos uma candidatura sem menção ao tema. O Nordeste concentra o maior número de planos nessa situação (31), seguido por Norte (22), Sudeste (15), Centro-Oeste (13) e Sul (10).
O Piauí lidera, com seis candidaturas nesse caso. Amazonas, Minas Gerais, Rio Grande do Norte e Santa Catarina vêm depois, com cinco cada. Ceará, Distrito Federal, Mato Grosso do Sul, Paraná, Rio de Janeiro e Roraima têm quatro. Nos demais estados, o número fica entre um e três.
Diferente da disputa presidencial, dividida em dois extremos, as eleições estaduais mostram mais variação — de planos bem detalhados até documentos vagos ou totalmente silenciosos sobre o tema.