Da esquerda para a direita: Pernalonga, Luciana Luciene, Petrônio de Sena e Guilherme Coelho, durante festa da Misty, boate que, com o Diversiones, moldou a noite “gay” de Recife e Olinda.
Da esquerda para a direita: Pernalonga, Luciana Luciene, Petrônio de Sena e Guilherme Coelho. Foto: Acervo Guilherme Coelho
cultura

Vivencial: o grupo que levou diversidade sexual aos palcos durante a ditadura

Escritor recupera a história do grupo que desafiou a censura e ajudou a transformar a cena LGBTQIA+

Em “Lantejoulas no mangue: teatro e desbunde do Vivencial”, lançamento da editora Autêntica, o jornalista e escritor Márcio Bastos resgata a trajetória do grupo teatral criado em Pernambuco em 1974. Durante a ditadura militar, a trupe fez do palco um espaço de liberdade sexual e deboche político. Reuniu pessoas LGBTQIA+, mulheres, estudantes, intelectuais e artistas de diferentes origens sociais, dispostos a contestar as convenções da época.

Tudo começou em 1973, quando o hippie Guilherme Pontes Coelho, então com 23 anos, bateu à porta do Mosteiro de São Bento, em Olinda, com a intenção de se tornar monge beneditino. Recebeu o nome de João Batista e, menos de um ano depois, já noviço, dirigiu uma peça em um galpão do Colégio de São Bento. A montagem acabaria dando nome ao Vivencial, um dos grupos teatrais mais ousados do país.

Em meio à censura e à perseguição de pessoas que contrariavam as convenções de sexualidade e gênero, o Vivencial combinava humor, música, performances e irreverência. Bastos retrata aquele período em um trecho do livro:

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“Naquele contexto, abordar sexualidades dissidentes de forma tão direta era raro no teatro. O pânico moral e o policiamento dos costumes, reforçados pela ditadura militar, ditavam a regra, e, ainda que não fosse crime, a homossexualidade era perseguida e penalizada, tanto no âmbito privado quanto na vida pública. O cenário era duro: em 1970, a Polícia Federal e a Secretaria de Segurança Pública proibiram a participação de travestis e homossexuais no Carnaval. Não podiam estar nem nas ruas, nem nos clubes ou desfiles de troças, sob ameaça de prisão. A política era nacional, com medidas de proibição de apresentações de travestis em vários estados, como no Rio de Janeiro, em teatros, cinemas, rádios, boates e até na televisão.”

“Lantejoulas no mangue” (Autência)

A primeira montagem, dirigida por Guilherme, estreou em maio de 1974 para celebrar uma data de uma pastoral católica de Olinda, da qual participavam vários futuros integrantes do grupo. Com colagens de notícias de jornal e textos de autores como Brecht, Genet e Pessoa, o espetáculo criticava a Igreja e o machismo e defendia abertamente a diversidade sexual. A plateia jovem vibrou, mas os monges, incomodados com a repercussão, não autorizaram novas sessões.

O veto não interrompeu as atividades da trupe. Entre 1974 e 1983, as vivecas, como os próprios integrantes se autodenominavam, levaram ao palco cerca de 30 espetáculos. Em 1979, deram um passo mais ambicioso: abriram o Vivencial Diversiones, uma casa de espetáculos erguida em uma área de mangue entre Recife e Olinda, numa região de moradias precárias. Ali, teatro, música, performances e vida noturna dividiam o mesmo teto, atraindo plateias de todas as classes sociais. Caetano Veloso passou por lá e ficou tão impressionado que ajudou a organizar uma temporada do grupo em São Paulo.

Apesar da repercussão na época, a trajetória do Vivencial ficou restrita, com o tempo, aos círculos culturais pernambucanos. O filme “Tatuagem” (2013), de Hilton Lacerda, livremente inspirado na história do grupo, ajudou a ampliar sua visibilidade, mas não chegou a torná-lo conhecido do grande público.

A obra dá continuidade ao trabalho iniciado pelo autor em “Pernalonga: uma sinfonia inacabada” (2023), biografia do ator Roberto de França, um dos rostos mais emblemáticos do coletivo. Agora, Bastos amplia o foco e mostra como o Vivencial foi decisivo para a formação de uma cena LGBTQIA+ em Pernambuco e no Nordeste, sobretudo após a abertura do Diversiones.

Em entrevista à Diadorim, ele comenta os desafios de reconstruir essa história e o legado da trupe. “O Vivencial hoje está nas apresentações de dublagem e nos números de comédia caricatas nas boates e saunas do Recife, com uma pegada bem diferente do modelo americano de RuPaul’s Drag Race, por exemplo.”

O jornalista e escritor Márcio Bastos, autor de “Lantejoulas no mangue: teatro e desbunde do Vivencial” e “Pernalonga: uma sinfonia inacabada”.

Foto: Gabriel Mesgo

AGÊNCIA DIADORIM — “Lantejoulas no mangue” é uma continuidade de uma pesquisa que você já vinha fazendo, que virou “Pernalonga: uma sinfonia inacabada” (2023). Como você entrou em contato com esse universo e como ele foi te levando de um personagem ao Vivencial?
MÁRCIO BASTOS —
O jornalismo me aproximou do Vivencial. Em 2011, entrei na Folha de Pernambuco como estagiário do caderno de cultura e fiquei responsável pela cobertura de teatro. Naquele ano, o Vivencial foi homenageado no Festival Recife do Teatro Nacional e também foi tema do livro “Transgressão em 3 atos: nos abismos do Vivencial”, de Alexandre Figueirôa, Claudio Bezerra e Stella Maris Saldanha. Dali em diante, o grupo sempre acabava aparecendo nas minhas pesquisas ou nas entrevistas, com seus membros (em seus mais diversos projetos) ou com outros artistas da cena. Em 2013, com o lançamento de “Tatuagem”, de Hilton Lacerda, que foi inspirado na história do grupo, novamente houve um interesse em torno dessa experiência tão instigante. Porém, meu mergulho nesse universo (ou nos abismos, como diria Jomard Muniz de Britto) veio em 2022, quando fiz a pesquisa para o livro sobre Pernalonga. Foi quando, além da questão documental, pude me aproximar dos integrantes do grupo e ter contato com a complexidade da história do Vivencial, que atravessa não só o teatro, mas a cultura pernambucana, de forma mais ampla, além da comunidade LGBTI+ no estado.

AGÊNCIA DIADORIM — O título junta lantejoulas e mangue, brilho e lama. Como essa imagem resume o percurso do Vivencial? Essas fotografias guiaram a forma de contar essa história?
MÁRCIO BASTOS —
O Vivencial sempre foi marcado pelos contrastes. Para o grupo, era importante aproximar ideias que poderiam parecer distintas, mas que juntas ajudaram a contar histórias, expressar sensações e criar outras possibilidades de estar em cena e no mundo. Acho que a imagem de lantejoulas no mangue resume o percurso do Vivencial por se tratar de um material muito barato e, ao mesmo tempo, bonito, colorido, brilhante. O Vivencial Diversiones, casa de espetáculos que o grupo abriu em 1979, no Complexo de Salgadinho, uma área de mangue entre Recife e Olinda, também era uma incorporação das várias ideias do grupo em relação à arte, como, por exemplo, a de dessacralizar o espaço cênico. O território fazia parte da experiência. O mangue, para Pernambuco, tem uma força muito grande como essa ideia de um ecossistema que é rico em vida, ao mesmo tempo em que é fedorento, às vezes maltratado. Tanto que, cerca de dez anos depois do fim do Vivencial, surgiu o Manguebeat. Era naquela área pobre, cercada por barracos, onde peças e shows aconteciam enquanto as pessoas conversavam, bebiam e se pegavam. Era um respiro de liberdade em meio à opressão da ditadura. Então, quando eu e Schneider Carpeggiani, editor da coleção “Nossas Histórias”, pensamos nesse título, queríamos trazer a junção desses dois elementos tão vivencialescos e, ao mesmo tempo, trazer uma noção das lantejoulas como vestígios, pequenas pistas de um passado que insiste em ser lembrado. Em relação às fotografias, muitos materiais sobre o grupo se perderam ao longo dos anos, mas, por sorte, o coletivo soube desde cedo a importância das imagens e, além de os artistas estarem em constante contato com a imprensa, também contrataram fotógrafos para registrar seus espetáculos. Gilberto Marcelino, por exemplo, foi um fotógrafo que trabalhou muito com o Vivencial, assim como Ana Farache, Zé Guilherme, Rita Redaelli, entre outros, que ajudaram a preservar esse legado do grupo. O que me fascina muito é como nessas fotografias sempre vaza uma irreverência e, principalmente, uma noção de alegria que surge da coletividade, desses encontros. No livro, reunimos tanto fotos como documentos, programas de espetáculos e matérias de jornais para aproximar o público do universo das vivecas, como eram chamados os membros do grupo.

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AGÊNCIA DIADORIM — O Vivencial inspirou filmes, teses e livros. Por que essa história segue chamando tanta gente a revisitá-la, e qual foi o seu olhar sobre ela?
MÁRCIO BASTOS —
A história do Vivencial parece ficção. É louco imaginar que um hippie que decide ser monge encontra um grupo de jovens querendo fazer teatro e, juntos, desenvolvem uma experiência cultural que transforma a cena pernambucana e também influencia outras cidades do Nordeste, como Fortaleza e Natal. As vivecas ofereciam uma catarse coletiva ao abordarem questões ligadas às dissidências sexuais e de gênero, criticarem a violência do Estado, a misoginia, o racismo, a intolerância religiosa, a desigualdade social e, também, promoverem a festa, o gozo e a alegria. “Lantejoulas no mangue” faz parte da coleção “Nossas Histórias”, da Autêntica, que busca resgatar e celebrar marcos de luta e fervo da comunidade LGBTI+ ao redor do Brasil. Então, diante de tudo que já foi escrito e produzido sobre o Vivencial, busquei uma abordagem que ressaltasse a importância do grupo não só para o teatro e para a cultura, mas também para a cena queer de Pernambuco e do Nordeste. Para isso, tentei reconstruir um pouco como era o clima para pessoas LGBTI+ em Pernambuco, trazer alguns personagens, como a travesti Lolita e o escritor Tulio Carella, além de ressaltar o ponto de virada que foi a abertura do Vivencial Diversiones, em 1979. Quase simultaneamente, foi aberta a Misty, primeira boate abertamente “gay”, termo usado na época para abarcar toda a comunidade. Juntas, elas abriram espaço para o florescimento de uma noite queer no estado e foram responsáveis pela formação e divulgação de muitos artistas dissidentes de sexualidade e gênero. Tudo fica mais fascinante quando lembramos que isso tenha sido feito durante os anos de repressão da ditadura militar. Acho que o Vivencial permite que pensemos a cultura brasileira durante a ditadura militar, o teatro e, como abordo no livro, as questões de sexualidade e gênero. Pessoas LGBT+, mulheres, pretos e pobres eram maioria no Vivencial. Era um grupo que subvertia hierarquias e que oferecia um espaço de acolhimento das diferenças. Existiu uma coragem em peitar a ditadura e as convenções sociais a partir de uma construção coletiva, o que ganha ainda mais significado quando passamos a viver em um tempo cada vez mais individualista. O Vivencial nos lembra que abraçar quem somos, nossa individualidade, é diferente de ser individualista. É na coletividade que conseguimos mudar o mundo.

Convidado por Jomard Muniz de Britto e Paulete Godard para conhecer o Diversiones, Caetano Veloso (na foto, vestindo uma jaqueta com o nome de Gilberto Gil) observa Pernalonga em cena.

Convidado por Jomard Muniz de Britto e Paulete Godard para conhecer o Diversiones, Caetano Veloso (na foto, vestindo uma jaqueta com o nome de Gilberto Gil) observa Pernalonga em cena.

Foto: Acervo Paulinho Santos
Pelas práticas de liberdade e aceitação, o Vivencial atraiu jovens de várias minorias. Desde o casarão dos irmãos Coelho até o café-concerto, seus espaços viraram símbolos de resistência. Foto: Acervo Gilberto Marcelino

Pelas práticas de liberdade e aceitação, o Vivencial atraiu jovens de várias minorias. Desde o casarão dos irmãos Coelho até o café-concerto, seus espaços viraram símbolos de resistência.

Foto: Acervo Gilberto Marcelino

AGÊNCIA DIADORIM — Sobre o trabalho de costura da obra: diferente de “Pernalonga”, que acompanha uma trajetória individual, aqui você precisou lidar com a memória de muitos personagens. Como foi amarrar tantas versões, afetos e lembranças em uma mesma narrativa?
MÁRCIO BASTOS —
Foi um desafio. Por se tratar de uma experiência tão coletiva, é impossível ter uma versão para a história. O Vivencial é feito por várias histórias e tive o privilégio de ouvir vários integrantes. Em muitos casos, algumas versões conflitavam, não porque uma fosse verdadeira e a outra falsa, mas porque estamos falando de fatos ocorridos há 50 anos e, também, da percepção de cada um sobre o ocorrido. O que busquei fazer foi, sempre que havia contradições, checar com mais fontes, tanto orais quanto documentais. Acho que o livro carrega essas diferentes narrativas. Me interessava muito conhecer mais sobre detalhes, sobre as vidas das vivecas, seus sentimentos em relação àquela época. Ao trabalhar com a memória dos outros, precisamos ter uma escuta muito ativa e respeitar os limites também. Aconteceu algumas vezes de uma fonte me contar sobre um espetáculo e eu saber que ela estava falando sobre outro, pela descrição, ou dar datas erradas. Eu ouvia tudo e só no final perguntava se, na verdade, ela não estava se referindo a determinada peça, por exemplo. Quando havia várias versões para um fato que não podiam ser verificadas, tentei apresentar todas elas. O livro abraça a perspectiva de que toda vida passa por alguma medida de fabulação.

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AGÊNCIA DIADORIM — O livro fala de outra época, em que o Vivencial convivia com a censura e a repressão. Na pesquisa, você conseguiu entender como o público da época recebia a obra do grupo? Eles percebiam o que estava em jogo ali ou era mais fervo e curiosidade?
MÁRCIO BASTOS —
Desde o primeiro espetáculo, “Vivencial I”, de 1974, o Vivencial teve questões com a censura. Todos os espetáculos sofriam algum tipo de corte ou intervenção. Muitas vezes, algumas coisas passavam porque os censores achavam que eram apenas “maluquices” daqueles jovens meio hippies. Como a chave da festa e da alegria sempre foi essencial para o coletivo, muitas críticas que faziam às instituições não eram entendidas pelos censores. Mas o público abraçava. Desde o início, o Vivencial conquistou uma plateia eclética e fiel. Alguns iam, claro, pela curiosidade, pela novidade, mas outros passaram a celebrar cada passo do grupo justamente porque, com o Vivencial, não se sabia o que esperar. Havia um frescor na encenação e na diluição das fronteiras entre arte e vida. Como as vivecas levavam para a cena muitas de suas próprias experiências, isso acabava reverberando no público. Os espetáculos eram prestigiados principalmente pela juventude, mas também por intelectuais e artistas mais abertos às experimentações. Claro que houve muita reação negativa também. Havia quem não considerasse o que o Vivencial fazia teatro. E, para falar a verdade, pouco importava ao Vivencial ser “teatro”. Tinha tudo ali: dança, artes visuais, música, cinema… Acho que essa liberdade no fazer artístico fascinava muita gente. Fora que o grupo adorava causar por onde passava: os artistas faziam happenings, se dividiam para estar nos principais eventos culturais da cidade, colaboravam com outros criativos da época etc. Com a abertura do Vivencial Diversiones, em 1979, esse público se amplia. As classes alta e média passam a frequentar o espaço muito motivadas pela curiosidade. Afinal, ali poderiam ver homossexuais, pessoas trans e outros grupos minorizados em um certo “conforto” da relação de público e plateia. As vivecas, claro, se aproveitavam disso para subverter as coisas e não deixavam de fazer matação com o público. O jornalista Valdi Coutinho, do Diario de Pernambuco, usou a expressão “doce agressão das vivecas” para definir o comportamento dos artistas diante do público. Acho que define bem a relação com o público nesse segundo momento, com a casa de espetáculos.

AGÊNCIA DIADORIM — Esse trabalho te fez achar que o Vivencial é um capítulo da história do teatro em Pernambuco, no Nordeste e no Brasil que se encerrou? Ou existe uma herança que ainda aparece na cena artística e LGBTQIA+ de hoje?
MÁRCIO BASTOS —
Jomard Muniz de Britto disse uma vez que seria inviável reproduzir uma proposta como o Vivencial, pois o Brasil havia entrado em uma fase de “endireitamento” neoliberal, desprovida de ousadia. O Vivencial, de fato, é fruto de um tempo e um território. Então, eu entendo a provocação dele. Acho que há décadas vemos um projeto de desmobilização da coletividade, de incentivo ao individualismo e de ode ao consumismo. Mas é justamente por isso que o exemplo do grupo continua tão forte, como falei acima. O Vivencial surgiu em um dos piores momentos da nossa história e mostrou que abraçar a diversidade e não abrir mão da alegria e do desejo são formas poderosas de resistência. E a gente vê o Vivencial em muitos lugares. Uma das maiores herdeiras do Vivencial é a Trupe do Barulho, que, com “Cinderela – a história que sua mãe não contou”, está há 35 anos arrastando multidões para os teatros do Recife. Cinderela, interpretada por Jeison Wallace, virou uma figura midiática, que aparece na televisão. Escrita por Henrique Celibi, um dos membros do Vivencial, é amada pelo grande público e é uma cria da estética e da prática do Vivencial Diversiones, que abraçou uma essência periférica, da margem. A Cinderela pernambucana é uma empregada doméstica, é pobre, preta e só quer ser feliz. O melhor: não aceita ser humilhada: é debochada, malcriada e esperta. Ela própria vai se salvar, mesmo que, para isso, tenha que se casar com um príncipe que é tão frango quanto ela. Acho genial. O Vivencial está nas apresentações de dublagem e nos números de comédia caricatas nas boates e saunas do Recife, com uma pegada bem diferente do modelo americano de RuPaul’s Drag Race, por exemplo. Está no teatro, com grupos que, com poucos recursos, encontram soluções criativas para levar suas questões para os palcos. Está na valorização de uma estética imperfeita, escrachada e comprometida com rasgar qualquer convenção.

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