
De tempos em tempos, volta a discussão sobre o carnaval ser ou não ser LGBTQIA+. Em 2026, circula nas redes a ideia de que os homens heterossexuais teriam “sumido” dos blocos carnavalescos. O debate não revela um “excesso” LGBTQIA+ no carnaval, mas o incômodo provocado quando a heterossexualidade deixa de ser o centro organizador das dinâmicas sociais.
A crítica parte de um estranhamento. Em alguns blocos, especialmente aqueles organizados e frequentados por pessoas LGBTQIA+, a dinâmica afetiva não gira em torno da heterossexualidade. Instaura-se outro regime de afeto, de relação, de desejo. Esse deslocamento é suficiente para que se diga que não há mais homens heterossexuais. Mas por que a descentralização da norma provoca tamanho desconforto?
O carnaval que conhecemos hoje passa pelas histórias de pessoas como João do Rio, Clóvis Bornay, Madame Satã, Daniela Mercury e Milton Cunha. Não se trata de presença recente, mas de uma dimensão constitutiva da própria cultura carnavalesca brasileira. São trajetórias que atravessam a cultura e um modo de vida que encontrou no carnaval um momento privilegiado para se expressar, com brilho, glitter, beijo na boca e fantasias belíssimas.
Hoje, leques nas cores do arco-íris podem ser vistos e ouvidos de longe, é uma maneira de marcar presença e dizer “estamos aqui”. Como afirmava o lema da 1ª Parada do Orgulho LGBT+, em 1997: “Somos muitos, estamos em todos os lugares”. O que choca, na verdade, não é a falta de homens heterossexuais, mas o fato, de nós, pessoas LGBTQIA+, sermos tantas.
Desde meados da década de 2010, os carnavais de rua de cidades como São Paulo, Belo Horizonte e Rio de Janeiro cresceram e passaram por transformações. Não há dúvidas de que esses processos tiveram protagonismo de pessoas e blocos LGBTQIA+. Não é possível contar essa história sem falar do Minhoqueens, em São Paulo, da Corte Devassa, em Belo Horizonte, do Vyemos do Egyto, no Rio, ou da Batekoo, que nasceu em Salvador e já realizou cortejos nessas cidades. São centenas de blocos assumidamente LGBTQIA+, formados por muitas razões além da vontade de brincar o carnaval.
Quando coletivos LGBTQIA+ organizam blocos carnavalescos, exercem algo que ultrapassa a diversão: reivindicam visibilidade, segurança, direito à alegria e à cidade. A estética do glitter, do deboche e da performance não é mero adorno; é estratégia política de visibilidade. Durante décadas, a recomendação
dirigida a nós foi a discrição, o silêncio e a invisibilidade. O brilho, nesse contexto, é resposta à violência histórica de apagamentos das nossas existências.
A ocupação das ruas durante o carnaval é percebida por pessoas LGBTQIA+ como um momento privilegiado de expressão, possibilitado por maior sensação de pertencimento e liberdade. Como consequência, normatividades heterossexuais e cisgêneras não apenas se deslocam, mas são desafiadas. O que para algumas pessoas pode parecer uma afronta, para nós é apenas uma forma de expressão. Estamos genuinamente nos divertindo nas ruas da cidade, que também são nossas.
O carnaval não se tornou “LGBTQIA+ demais”. Tornou-se, talvez, mais visível naquilo que sempre foi: espaço de invenção, visibilidade e resistência de um grupo social historicamente marginalizado.
Vinicius Ribeiro A. Teixeira
É doutor em sociologia pela Universidade de São Paulo (USP) e autor do livro Arco-íris brilha com glitter: ativismos LGBTQIA+ no carnaval de rua de São Paulo. (MULTIFOCO, 2026)