
Entre apitos e serpentinas: o Carnaval como território LGBTQIA+
A contramestra Bárbara Lima e o sambista Cláudio Rosa contam como constroem identidade e pertencimento na maior festa popular do Brasil
Nos ensaios do Maracatu Encanto do Dendê, em Jaboatão dos Guararapes, na Região Metropolitana do Recife, a contramestra Bárbara Lima levanta os braços e o batuque inteiro para. Segundos depois, é seu apito que recoloca o grupo em movimento. A cena é técnica e política ao mesmo tempo: uma mulher negra, lésbica, de 26 anos, ocupando uma posição de liderança na cultura popular pernambucana, onde os homens ainda são maioria.
A quase três mil quilômetros dali, na capital paulista, Cláudio Rosa, 55, desfila na Acadêmicos da Tucuruvi. Ele não trabalha para a escola, tampouco compõe a diretoria. Nos meses que antecedem os desfiles, frequenta os ensaios três vezes por semana porque como sambista, diz ele, consegue existir sem precisar negociar quem é. “O Carnaval me aceita. Em muitos outros lugares, só me toleram”, resume.
Bárbara e Cláudio ocupam posições distintas no Carnaval brasileiro, mas experienciam uma sensação de pertencimento comum a pessoas LGBTQIA+.
‘Eu não desligo quem eu sou quando entro no batuque’
Bárbara nasceu no Recife, mas foi criada em Jaboatão, numa casa cercada por mulheres — mãe, avó e tia. Cresceu circulando entre igrejas católicas e terreiros, convivendo com duas cosmologias que disputavam sentido na sua formação.
Quando criança, tinha pavor dos bonecos gigantes de Olinda. O medo do Carnaval só foi quebrado aos 15 anos, quase por acaso. Ela saiu de uma procissão e esbarrou num ensaio do Maracatu Aurora Africana. Sentou na calçada, observou o batuque e foi convidada a pegar um tambor. Foi assim que aprendeu a tocar alfaia: “de ouvido”.
Hoje, Bárbara é contramestra do Encanto do Dendê e a única mulher a ocupar essa posição de liderança dentro de uma nação de maracatu em Pernambuco.
No Tumaraca, evento de abertura oficial do Carnaval do Recife, que ocorre na quinta-feira pré-carnavalesca, 13 nações se apresentam todos os anos no Marco Zero. No comando do batuque, quase todos são homens. Bárbara observa esse contraste com cuidado crítico.
“Temos a mestra Joana como única mestra naquele palco. Karen Aguiar rege o Leão Coroado, mas não se diz mestra por questões internas. E eu sou a única contramestra do estado. Isso diz muito”, aponta.
Para ela, não existe maracatu neutro. Falar da tradição sem falar de raça, gênero e poder é, em suas palavras, “uma mentira conveniente”. Ela afirma que, historicamente, quem construiu o maracatu foram mulheres: bordando, engomando, costurando. “O cara aparece bonito na avenida porque antes uma mulher trabalhou horas na roupa dele”, diz.
Mesmo amparada por suas ancestrais, ela sente que o preconceito faz parte do seu cotidiano. “Muitos homens me veem como alguém que está ‘tomando o que é deles’ — o espaço de liderança e até mesmo as mulheres, já que sou lésbica. É como se a gente fosse posse”, fala.
Apesar dos conflitos, Bárbara não recua. O maracatu é seu lugar de afirmação de identidade. “Eu sou tudo o que carrego: preta, gorda, periférica, lésbica. Eu não consigo desligar isso quando entro no batuque”, resume.
É ali, ajudando a manter viva a cultura popular do Nordeste brasileiro, que ela se sente em casa.
Este ano, o Encanto do Dendê estreia no Grupo Especial. A preparação é intensa: fantasias costuradas, obrigações de terreiro cumpridas, calungas prontas para ir para a rua. “A gente quer ser campeão. Mas, antes disso, a Noite dos Tambores [Silenciosos, cerimônia religiosa que ocorre às segundas-feiras de Carnaval, no Recife, com nações de maracatu] já lava a alma.”
Claudio Rosa, integrante da escola de samba Acadêmicos do Tatuapé (SP).
Foto: Acervo pessoal‘O Carnaval me aceita’
Uma pesquisa do Datafolha, realizada em parceria com a Liga das Escolas de Samba de São Paulo, em 2024, mostrou que 15% das pessoas que desfilam ou trabalham nas escolas do Grupo Especial paulistano se autodeclaram LGBTQIA+. O estudo também indicou uma percepção elevada de acolhimento: 99% dos entrevistados afirmaram que podem ser quem são nas agremiações (93% concordam plenamente e 6% em parte), mesmo índice dos que consideram as escolas espaços que respeitam identidades de gênero, enquanto 93% dizem se sentir livres para expressar quem realmente são.
Um deles é Cláudio Rosa. Ele nasceu em Bangu, no Rio de Janeiro, e cresceu em uma família negra e humilde, circulando desde cedo entre a igreja católica, os blocos de bairro e as quadras de escola de samba. Esse trânsito entre fé e festa moldou tanto sua relação com o mundo quanto com o próprio corpo.
Ele conta que sabia que era gay “desde menino”, mas nunca encontrou espaço para falar abertamente sobre sexualidade em casa. A resistência do pai se manifestava, também, no medo do Carnaval. “Ele tinha receio de um dia me ver vestido de mulher”, relembra.
Seu primeiro desfile foi em 1989, num bloco de bairro, fantasiado de Saci Pererê. A partir daquele ano, o Carnaval deixou de ser apenas diversão e passou a funcionar como espaço de elaboração de quem ele era.
Cláudio desfilou pela Beija-Flor e pela Vila Isabel antes de se mudar para São Paulo. Hoje integra o Acadêmicos do Tucuruvi. Não ocupa cargo de direção, mas faz questão de estar na primeira ala e de cumprir a rotina de ensaios à risca — quintas, sextas e domingos.
Essa sensação de pertencimento também se expressa na forma como ele ocupa a rua. Mesmo quando não está desfilando, Cláudio monta seus looks com ombreiras e paetês e se lança na multidão de foliões do Ibirapuera, onde sempre acaba fazendo novos amigos. A “montação”, para ele, é um ritual pessoal de afirmação. “Carnaval é alegria, é libertação”, celebra.
Liberdade e disputa
A ideia de que o Carnaval é, por natureza, um espaço de inversão de normas e suspensão de hierarquias sociais é recorrente nos estudos sobre a festa. Mas, segundo o sociólogo Vinicius Ribeiro A. Teixeira, doutor pela USP e autor de “Arco-íris Brilha com Glitter: Ativismos LGBTQIA+ no Carnaval de Rua de São Paulo”, essa leitura precisa ser relativizada.
Ele afirma que nem todas as violências e desigualdades desaparecem durante a folia. “Algumas práticas do nosso cotidiano não desaparecem durante o carnaval”, diz, citando como exemplo a necessidade de campanhas recorrentes contra o assédio, como o “Não é não”, além dos debates sobre fantasias que podem reforçar estigmas ou apropriações culturais.
Ainda assim, o pesquisador reconhece que a festa abre brechas para a expressão de identidades dissidentes. O Carnaval cria um ambiente de maior liberdade simbólica, onde pessoas LGBTQIA+ conseguem experimentar formas de existência menos reguladas. É um período, segundo ele, de “múltiplas possibilidades de expressão e manifestação”, em que criatividade e ludicidade permitem viver experiências que nem sempre cabem no cotidiano.
Nesse contexto, o afeto ganha centralidade. Se ao longo do ano muitas pessoas LGBTQIA+ se mantêm vigilantes ao demonstrar carinho em público, durante o Carnaval —especialmente em blocos formados por essa população— essas demonstrações tendem a ocorrer com mais abertura, ancoradas no sentimento de pertencimento e segurança coletiva.
Como resume em seu livro: “Não entendo os dias de carnaval como propriamente como de subversão da ordem, são, em última instância, momentos subversivos, pois questionam as estruturas que regulam o nosso cotidiano. Um cotidiano notadamente heterocisnormativo.”
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entrarAo analisar relatos de foliões LGBTQIA+, o pesquisador aponta três fatores que ajudam a explicar esse pertencimento: a performatividade de gênero, a visibilidade nas ruas e a experiência coletiva. “No carnaval, os nossos corpos encontram uma cidade mais aberta às nossas existências e vivências”, afirma. Fantasias, beijos, abraços e performances corporais funcionam, nesse contexto, como formas públicas de afirmação.
Ele também destaca que o pertencimento se constrói no coletivo. “Participar de um bloco LGBTQIA+ significa pertencer e dar visibilidade à diversidade de gênero e sexual, além de resistir à homofobia, à transfobia e ao machismo”, escreve.
Esse ambiente de acolhimento, porém, não elimina disputas. Conflitos por liderança, reconhecimento e poder, como os observados em grupos culturais tradicionais, fazem parte da própria organização das escolas, blocos e nações carnavalescas. Para Teixeira, o Carnaval não está dissociado da vida social: ele é atravessado por ela.
“Acho importante termos em mente que mesmo na sátira, nas críticas sociais que vemos durante o carnaval, é o cotidiano que informa tais práticas”, afirma. Como exemplo, ele cita a influência recente do cinema nacional na festa. “Um bom exemplo é como o cinema nacional inspirou inúmeras fantasias e até mesmo a criação de blocos no ano passado com ‘Ainda Estou Aqui’ e neste ano com ‘O Agente Secreto’.”
A preparação para o Carnaval, lembra o pesquisador, ocorre ao longo de todo o ano, envolvendo captação de recursos, produção e articulação política. Por isso, mesmo sendo um período de maior liberdade, as estruturas sociais seguem presentes,ainda que tensionadas.
Entre liberdade e permanência, a pesquisa indica que a festa funciona como um espaço de disputa simbólica: ao mesmo tempo em que permite experimentar outros modos de existir, também reproduz, em alguma medida, as desigualdades do mundo fora da avenida.