Jornalista lança guia e aponta falhas na cobertura da mídia sobre bissexuais
A jornalista Jess Carvalho. Foto: Divulgação
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Jornalista lança guia e aponta falhas na cobertura da mídia sobre bissexuais

Como o jornalismo cobre — ou silencia — pessoas bissexuais no Brasil? Foi essa pergunta que moveu a jornalista e pesquisadora Jess Carvalho na produção do “Guia de Boas Práticas para Coberturas Jornalísticas sobre Bissexualidade” (Editora Trôpego), lançado neste mês de junho.

O livro nasceu de dissertação de mestrado de Jess na Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) e se debruça sobre o modo como a imprensa representa pessoas bi: quando elas aparecem, como são nomeadas, o que é dito — e o que fica de fora.

A partir da escuta de ativistas e pesquisadores bissexuais e da análise de reportagens publicadas na mídia brasileira, Jess propõe uma reflexão crítica sobre os enquadramentos mais comuns e oferece orientações práticas para jornalistas e comunicadores. “Nomear é uma forma de assumir uma existência”, afirma a jornalista.

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Nesta entrevista à Diadorim, ela analisa os padrões mais recorrentes nas coberturas, aponta o que está em jogo na escolha das palavras e explica por que o jornalismo ainda trata a bissexualidade como exceção.

O “Guia Bi, que está disponível para download gratuito, será lançado neste sábado, 21 de junho, às 14h, na Casa 1, em São Paulo. O evento faz parte da programação do Mês do Orgulho promovida pela Rede Brasileira de Estudos sobre Bissexualidade e Monodissidência (Rebim) e contará com uma roda de conversa com a autora, mediada pelo pesquisador Inácio Saldanha.

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AGÊNCIA DIADORIM — Que elementos você identifica como centrais na forma como o jornalismo brasileiro estrutura a bissexualidade como pauta — quando ela aparece?
JESS CARVALHO —
O que percebi, ao longo da minha pesquisa, é que o jornalismo brasileiro pauta a bissexualidade a partir de um agendamento episódico, sazonal, quase sempre concentrado no Dia da Visibilidade Bissexual. Também há os casos em que o agendamento é reativo, acionado por episódios midiáticos de grande repercussão — como no caso do Lucas Penteado no BBB 21, quando ele disse que era bissexual em rede nacional e imediatamente sofreu rejeição dentro e fora da casa. A partir dali, a mídia se mobilizou para falar sobre bissexualidade, mas muito mais focada na polêmica e no episódio específico do que nas estruturas que produzem o apagamento e a bifobia. Ou seja: a cobertura é escassa, e quando existe, ainda é muito atravessada por enquadramentos monossexistas. Isso significa que há uma dificuldade estrutural de reconhecer a bissexualidade como uma identidade legítima, completa, estável e não binária. Muitas vezes, a pauta vem enviesada por uma lógica de explicação didática, como se estivéssemos o tempo todo precisando justificar nossa existência, ou então aparece atravessada por estigmas, fetichização e exotificação.

DIADORIM — Que escolhas de linguagem e abordagens mais comprometem a qualidade das coberturas sobre pessoas bi?
JESS —
Vejo que um dos principais problemas é o uso de termos genéricos, que apagam a bissexualidade. É muito comum ler ou ouvir expressões como “pessoas LGBT” sem nomear especificamente quem são essas pessoas. Outra prática muito recorrente é reduzir a bissexualidade à performance do desejo — por exemplo, quando uma mulher cis está em um relacionamento com um homem cis, ela automaticamente é lida como hétero e vice-versa, e se uma pessoa se relaciona com alguém do mesmo gênero, passa a ser lida como gay ou lésbica. Isso reforça a ideia de que a bissexualidade não é uma identidade em si, mas uma fase, uma confusão ou uma indecisão. E isso também aparece nas escolhas de enquadramento, especialmente na cobertura cultural e de entretenimento. Um exemplo clássico é quando dois homens se beijam e a manchete vem como “rolou beijo gay”, ainda que nenhuma das pessoas envolvidas seja gay. Esse tipo de enquadramento não é neutro: ele traduz a dificuldade da mídia em reconhecer a bissexualidade como identidade possível. Tudo que escapa da lógica hétero/homo vira automaticamente “gay” no imaginário midiático. Seria mais adequado falar, por exemplo, em “beijo entre homens”.

DIADORIM — De que forma o jornalismo contribui para reforçar a bissexualidade como uma identidade “de passagem”, instável ou indefinida?
JESS —
O jornalismo reforça essa ideia quando não reconhece a autodeterminação das pessoas. Marielle Franco é exemplo disso. Embora tenha dito várias vezes em vida que era uma pessoa bissexual, ela é frequentemente chamada de lésbica em função de sua relação com Monica Benício. Precisamos despatologizar o pensamento sobre diversidade sexual. Não é possível diagnosticar uma pessoa como lésbica, gay ou bissexual com base na observação de seu comportamento relacional, tampouco faz sentido reproduzir a ideia de que a bissexualidade é transitória, circunstancial. O reforço desse estereótipo também se manifesta quando jornalistas preferem colocar o foco nas dúvidas, nos estigmas ou na “confusão” atribuída às pessoas bi, em vez de abordar a bissexualidade como uma identidade política, estável e válida por si mesma. É claro que as identidades são, por natureza, fluidas e podem se transformar ao longo da vida — e isso vale para qualquer pessoa, não apenas para pessoas bissexuais. Mas essa possibilidade de transformação não pode ser usada como justificativa para deslegitimar nossa existência no presente. A bissexualidade não é uma fase, não é uma dúvida, não é um entre-lugar: é uma identidade legítima.

DIADORIM — O que está em jogo, do ponto de vista político e simbólico, quando a palavra “bissexual” não é usada em uma cobertura que envolve pessoas bi?
JESS —
O que está em jogo é, sobretudo, a nossa existência. A palavra dá corpo. Quando não somos nomeados, a mensagem que se transmite é de que nós não existimos enquanto sujeito político, enquanto sujeito social. É uma prática de apagamento que tem consequências concretas na garantia de direitos, na produção de dados, no desenho de políticas públicas e também na legitimação da nossa identidade no convívio social.

DIADORIM — Que mudanças você gostaria de ver nas redações depois da leitura do “Guia”?
JESS —
Gostaria de ver jornalistas nomeando a bissexualidade, ouvindo pessoas bissexuais enquanto fontes qualificadas e não apenas como personagens. Temos pesquisa sobre bissexualidade no Brasil há pelo menos 20 anos. E, sobretudo, desejo que as redações compreendam que cobrir bissexualidade não é só fazer matérias no Dia da Visibilidade, mas incorporar essa lente crítica o ano todo, seja na editoria de cultura, de política, de economia ou de cotidiano. Nós exercemos a parentalidade, construímos famílias, estamos nas universidades, nas empresas, nas artes, na política, no jornalismo. Somos sujeitos, somos pauta, somos parte fundamental da sociedade que a imprensa se propõe a narrar. O “Guia Bi” é uma contribuição para que jornalistas e comunicadores tenham um material de consulta rápido e acessível para pensar os enquadramentos sobre bissexualidade de maneira crítica. Ele não resolve um problema estrutural, mas certamente provoca, propõe, convida. E ele também pode e deve ser apropriado como material didático nos cursos de jornalismo.

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