Juliano Floss e Jonas Sulzbach, participantes do BBB 26
Juliano Floss e Jonas Sulzbach, participantes do BBB 26. Fotos: Divulgação/TV Globo
LGBTIfobia

O falo, o riso e a homofobia em horário nobre

Um homem que ficou famoso no Brasil por seus 22 centímetros de pênis diz que não quer ser resumido ao corpo. Reclama, justificadamente, da fama, da caricatura, da virilidade excessiva que lhe foi colada à pele. A objetificação desse corpo, que o incomoda, parece apagar qualidades que ele diz ter e que não são vistas. A raiva é mais que justa.

Mas não é nada simples. É esse mesmo homem, objetificado, sexualizado, desejado, quem achou por bem usar como arma contra um adversário de jogo os termos “loirinha” e “progesterona”, como se o feminino continuasse sendo, em pleno 2026, o lugar mais eficiente do rebaixamento. Certas coerências, afinal, não pedem licença.

Cá estamos nós, mais uma vez, diante do espelho ligeiramente deformado do país, e talvez por isso tão fiel, que é o BBB 26. Um lugar onde conflitos pequenos ganham proporções morais e onde palavras aparentemente banais revelam estruturas antigas, duras, persistentes.

E eis que a homofobia bateu à porta.

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O que Jonas usa contra Juliano não é provocação ingênua. Trata-se de deslocar o outro de lugar, carimbá-lo com um visto antigo, reservado àquilo que deve ser diminuído.

Nada disso acontece por acaso, embora sempre se diga que aconteceu.

Jonas Sulzbach é o tipo de homem que performa a masculinidade com disciplina quase profissional, algo para o qual muitos meninos já são alfabetizados antes mesmo da quinta série. Alto, musculoso, corpo moldado para ser visto e reconhecido. Tornou-se conhecido como Jonas 22, personagem de um vídeo explícito em que media o próprio pênis diante de uma webcam. Diz que se incomoda com essa fama. Que gostaria de ser visto para além do corpo. É compreensível. O curioso é que suas redes sociais seguem dedicadas, com zelo, à exibição desse mesmo corpo. Jonas pode até negar o rótulo, mas parece cuidar dele com afinco.

Juliano Floss, ao contrário, não colabora com esse imaginário. É dançarino. Magro, ainda que de corpo trabalhado. Cabelo descolorido, gestos soltos, emoções à vista. Dança. Chora. Fala de sentimentos sem pedir desculpas. E talvez seja exatamente isso que o transforme, aos olhos de Jonas, em “loirinha”. Não porque seja mulher, mas porque não se esforça para provar que não é.

Masculinidade não é essência nem destino biológico, mas uma configuração de práticas que se organiza, sobretudo, nas relações entre os próprios homens. Existe uma masculinidade hegemônica, que se apresenta como natural, e outras que são empurradas para posições menores. Feminilizar o adversário, nesse jogo, é um gesto antigo.

Talvez seja cedo para afirmar que a homofobia se tornou o grande tema desta edição do BBB. Mas ela aparece com frequência suficiente para deixar de ser ruído e virar pauta. Não está apenas em Jonas. Está também em Matheus, que desfilou caricaturas afeminadas, cantou com orgulho músicas homofóbicas ligadas ao seu time de futebol e saiu convencido de que havia sido apenas mal interpretado. Um mal-entendido coletivo, ao que parece.

Essa é a forma mais eficiente de preconceito hoje. Aquela que se apresenta como equívoco. Nunca é agressão; é exagero de quem escuta. Nunca é violência; é apenas “zoeira”.

É homofobia, sim.

Há, no entanto, um elemento ainda mais incômodo nessa história, e ele diz respeito a muitos de nós. Jonas não é apenas o macho tóxico que agride simbolicamente o outro. Ele também é, não raramente, objeto de desejo e admiração de parte do nosso imaginário gay. O corpo musculoso, a virilidade ostensiva, o homem que parece encarnar aquilo que nos disseram, desde cedo, que não éramos. Tudo isso ainda seduz.

E aqui cabe a provocação. Esse homem merece mesmo nossa atenção? Ou seguimos desejando, com disciplina quase automática, exatamente o modelo que historicamente nos violenta?

Há algo de perverso nesse circuito. O macho tóxico não é apenas nosso opressor externo. Muitas vezes, ele é também nosso padrão de validação. O algoz, não raro, ocupa o lugar do desejado, e isso diz menos sobre ele do que sobre as marcas que o viriarcado deixou em nós.

Enquanto isso, dois homens gays se beijam sem cerimônia diante das câmeras. Com desejo e apetite. Sem pedir licença, sem fazer pedagogia, sem parecer preocupados em representar nada além do próprio corpo em movimento. Como quem atravessa a sala carregando um copo d’água enquanto o resto da casa debate a moral da sede.

É como se duas épocas dividissem o mesmo confinamento. De um lado, a masculinidade que se sente ameaçada e reage com escárnio. De outro, pessoas que já não aceitam a lógica da vergonha e tampouco a lógica da compensação, da virilidade emprestada, do desejo tutelado pelo opressor.

Não é preciso acompanhar o BBB 26 para perceber que aí está o retrato de um Brasil ainda muito empenhado em medir homens pelo falo, pela dureza, pela negação do afeto, enquanto convive, meio contrariado, com a evidência de que isso já não dá conta do mundo.

No fim das contas, chamar o outro de “loirinha” diz muito menos sobre Juliano do que sobre o medo persistente de quem ainda acredita que ser homem é um cargo a defender. E talvez o verdadeiro incômodo, o mais difícil de admitir, seja reconhecer que, por muito tempo, fomos ensinados a desejar exatamente quem nos ensinou a ter vergonha de nós mesmos.

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Mateus Araújo

Jornalista pela Universidade Católica de Pernambuco e mestre em Artes pela Unesp, pesquisa masculinidades no teatro. É repórter do TAB UOL. Já escreveu para revista Continente, Folha de S.Paulo e integrou a editoria de Cultura do Jornal do Commercio. Foi cofundador da Diadorim.

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