
Como o Teatro do Oprimido ajudou pessoas LGBTQIA+ a criar laços
Jogos teatrais, exercícios corporais e conversas sobre preconceito ajudaram homens gays, bissexuais, queer e trans a criar laços e se sentir parte de um grupo. É o que mostra um estudo publicado em junho no Journal of Community Psychology.
Os pesquisadores David Puvaneyshwaran, Abbrielle Jiamin Low, Shao Yuan Chong, Ye Xuan Wee, Jungup Lee e Peilin Liang acompanharam 16 pessoas de 21 a 34 anos em Singapura. Oito participaram de cinco oficinas de Teatro do Oprimido, com duas horas de duração cada. As outras oito formaram um grupo de comparação.
O resultado mais claro foi o fortalecimento das redes de apoio. Entre os oito participantes das oficinas, cinco passaram a sentir que tinham mais contato com pessoas que viviam experiências e dificuldades parecidas. Três não perceberam mudança e nenhum apresentou piora.
A melhora entre os participantes das oficinas foi considerada relevante pelos critérios estatísticos usados no estudo. Os relatos ajudam a entender como os encontros aproximaram o grupo. Um dos participantes destacou a disposição para construir coletivamente as cenas e imagens propostas.
“Foi muito reconfortante perceber que todos estavam dispostos a desenvolver as sugestões uns dos outros. Isso fez com que eu me sentisse apoiado dentro do grupo”, afirmou um dos participantes. Os pesquisadores preservaram a identidade das pessoas que participaram do estudo.
Para o único homem trans que participou das oficinas, os encontros também aumentaram a aproximação com outras pessoas LGBTQIA+. “Antes disso, eu me sentia distante da comunidade queer mais ampla. Agora, porém, vejo meus próprios sentimentos e experiências refletidos nas outras pessoas”, disse.
Experiências pessoais viram debate coletivo
Criado pelo diretor e dramaturgo Augusto Boal e inspirado nas ideias do pedagogo Paulo Freire, o Teatro do Oprimido usa jogos, encenações e movimentos corporais para discutir situações de opressão e pensar em maneiras de enfrentá-las.
As oficinas realizadas em Singapura incluíram exercícios de confiança, interpretação e criação de imagens com o corpo. Depois de cada atividade, os participantes conversavam sobre identidade, preconceito e desigualdade.
Em uma das dinâmicas, chamada “Distribuição do poder”, eles se movimentavam pelo espaço enquanto respondiam a perguntas sobre segurança, acesso a direitos e apoio. A posição de cada pessoa ajudava a mostrar que havia diferenças mesmo dentro daquele pequeno grupo.
As oficinas também evidenciaram que pessoas LGBTQIA+ vivem experiências diferentes de preconceito e acolhimento. Ao ouvir a história de outro integrante, um participante percebeu que o apoio recebido durante a descoberta da própria sexualidade não era uma realidade para todos.
“Eu sempre considerei o apoio que tive como algo garantido. Mas isso não acontece com todo mundo”, disse.
Segundo os pesquisadores, as atividades ajudaram o grupo a conversar sobre diferenças de segurança, visibilidade e privilégio. O estudo destaca que compartilhar uma identidade LGBTQIA+ não gera solidariedade automaticamente: é preciso também reconhecer as diferentes vivências dentro da comunidade.
Oficinas abordaram medo e vergonha
Em outra atividade, chamada “O policial na cabeça”, os participantes repetiram frases de julgamento, medo e vergonha que ouviram ao longo da vida e acabaram incorporando. A proposta era enfrentar essas vozes e o impacto delas sobre a forma como expressavam suas identidades.
“Dizer aquela frase que mais me feriu me destruiu um pouco por dentro no começo. Mas, quanto mais eu a repetia, mais poder adquiria sobre aquelas palavras. Isso não resolve o problema, mas me ajuda a permanecer mais firme”, relatou outro participante.
Para os autores, o teatro abriu caminho para essas reflexões, mas as conversas realizadas depois de cada exercício tiveram papel fundamental. “O Teatro do Oprimido serviu como veículo, mas foi o diálogo freiriano que ofereceu o terreno sobre o qual a consciência crítica se desenvolveu”, afirmam.