
O que a PEC da escala 6×1 tem a ver com o movimento LGBTQIA+?
A Câmara dos Deputados aprovou ontem a proposta que reduz a jornada de trabalho do modelo 6×1 para um regime mínimo de 5×2, uma das principais pautas trabalhistas debatidas no país nos últimos anos. A medida teve a deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP) entre suas principais articuladoras e recolocou em evidência uma relação histórica entre o movimento LGBTQIA+ e as lutas por direitos dos trabalhadores.
Reportagem publicada pela Diadorim em dezembro de 2024 mostrou que a PEC da jornada 5×2 reaproximou lideranças LGBTQIA+ e o movimento trabalhista, retomando uma relação histórica construída em torno da defesa de direitos sociais e da dignidade no trabalho.
Na época, especialistas ouvidos pela reportagem apontaram que a atuação de Erika Hilton e do vereador do Rio de Janeiro Rick Azevedo (PSOL-RJ), fundador do Movimento Vida Além do Trabalho (VAT), resgatava décadas de articulação entre movimentos sociais e organizações de trabalhadores.
O historiador e brasilianista James Green, um dos pioneiros do movimento LGBTQIA+ no Brasil, lembrou que, durante as décadas de 1980 e 1990, militantes gays e lésbicas buscaram inserir suas pautas dentro do movimento sindical. Segundo ele, sindicatos ligados à Central Única dos Trabalhadores (CUT) ofereceram apoio para iniciativas que ajudaram a estruturar as primeiras Paradas do Orgulho LGBT em cidades como São Paulo e Rio de Janeiro.
Green também recordou a participação de cerca de 50 gays e lésbicas em manifestações ligadas à greve geral de 1º de maio de 1980, durante as mobilizações operárias do ABC Paulista. Na ocasião, integrantes do grupo Somos distribuíram panfletos relacionando a luta do movimento homossexual às reivindicações dos trabalhadores. Para o historiador, aquele foi um dos primeiros esforços para construir pontes entre as duas agendas.
Quando a proposta foi apresentada ao Congresso Nacional, Erika Hilton afirmou que a redução da jornada estava ligada à garantia de melhores condições de vida para a população trabalhadora. “Essa PEC é sobre dignidade no trabalho. Trata-se de reconhecer que o descanso é essencial para a saúde física, mental e para a vida familiar e social dos trabalhadores brasileiros”, declarou.
O advogado e escritor Renan Quinalha, autor de obras sobre a história do movimento LGBTQIA+ brasileiro, afirmou à Diadorim que a discussão ajuda a romper a ideia de que lideranças LGBTQIA+ atuam apenas em pautas identitárias. Segundo ele, propostas voltadas ao mundo do trabalho também fazem parte da luta por igualdade e inclusão social.
“Muitas vezes, a luta LGBTQIA+ é vista como algo separado das questões trabalhistas, mas essa dicotomia é falsa. Lideranças como Erika mostram que a luta LGBTQIA+ é uma luta por uma sociedade mais justa para todos. Estamos falando de redistribuição de poder, de recursos e de oportunidades”, afirmou Quinalha.
Para James Green, o protagonismo de Erika Hilton na discussão também possui um significado simbólico. Segundo ele, a participação de uma mulher trans na defesa de uma pauta trabalhista de alcance nacional desafia estereótipos e amplia o debate sobre direitos sociais.
“A liderança de uma mulher trans como Erika nessa proposta desafia estereótipos e demonstra como lideranças LGBTQIA+ estão ampliando suas agendas para incluir demandas de toda a classe trabalhadora”, disse o historiador à reportagem da Diadorim.
Leia a reportagem completa aqui.