
Homossexuais investem mais que heterossexuais, mas aplicam pouco em previdência
Homossexuais costumam investir mais dinheiro do que heterossexuais, de acordo com uma pesquisa divulgada na quinta-feira (23 abr.) pela Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais) em parceria com o Datafolha.
Das 5,8 mil pessoas entrevistadas na 9ª edição do Raio-X do Investidor Brasileiro, 5.101 se declararam heterossexuais, 191 são homossexuais e 181, bissexuais. Ou seja, 6,37% dos entrevistados fazem parte da população LGBTQIA+ e 87,46% são heterossexuais. A margem de erro da pesquisa é de 1%
Entre os homossexuais, 30,36% afirmaram que fizeram algum investimento em 2025. Já entre os bissexuais, foram 25,96%; e entre os heterossexuais, 25,17%. Sobre os investimentos realizados, há uma preferência:
- 1º lugar: caderneta de poupança. Principal escolha para 22,66% dos heterossexuais e 18,4% no público LGBTQIA+ (homossexuais e bissexuais).
- 2º lugar: títulos privados (debêntures, CDB, LCI, LCA, LC, Certificados de Operações estruturadas (COE), CRA, CRI, entre outros): 7,51% entre héteros e 8,73% para os LGBTQIA+.
- 3º lugar: fundos de investimento (renda fixa, multimercado, fundo cambial, fundos de ações, fundo Imobiliário): 5,2% para os héteros e 8,37% para o público LGBTQIA+.
Para o economista Gean Duarte, criador do método Bixa Rica, a diferença entre os comportamentos nos três públicos reflete muito mais o estilo de vida e prioridades do que com qualquer outro aspecto.
“Quando a gente vê que pessoas homossexuais investem mais, um dos principais motivos é a forma como a vida financeira costuma se organizar”, diz. “Em média, há menos pressão de seguir aquele roteiro tradicional de casar, ter filhos e assumir vários custos fixos de longo prazo. Isso não é regra, claro, mas acontece com bastante frequência. E quando você tem menos despesas estruturais, sobra mais dinheiro para investir.”
Já o planejador financeiro e especialista em investimentos Jeff Patzlaff observa que, historicamente, a população homossexual enfrenta barreiras sociais que exigem um esforço muito maior para alcançar o mesmo nível de reconhecimento profissional.
“O resultado prático disso é a famosa dupla jornada, muitos homossexuais acabam trabalhando mais, se especializando mais e entregando mais resultados para garantir seu espaço no mercado. Isso se reflete em uma renda média frequentemente maior. Com mais dinheiro entrando, a capacidade de investir aumenta muito”, destaca.
Marcelo Billi, head de Sustentabilidade, Inovação e Educação da Anbima, afirma que o maior nível de investimento entre homossexuais já havia sido identificado em edições anteriores da pesquisa.
“O que posso afirmar, com base nas pesquisas anteriores, é que sempre aparece um ou outro aspecto de comportamento diferente, mas nada estrutural como quando se divide a população por geração ou renda. Esses são os dois grandes marcadores, que mudam completamente o cenário. Em gênero ou identidade de gênero, há diferenças pontuais que podem ser discutidas”, diz.
Economista Gean Duarte é criador do método Bixa Rica
Crédito: DivulgaçãoRetorno ou segurança financeira?
Sobre as vantagens de investir, a segurança financeira aparece em primeiro lugar para heterossexuais (38,26%) e bissexuais (40,33%). Entre homossexuais, pesa mais o retorno financeiro, apontado por 42,9% dos entrevistados.
Para Gean Duarte, a diferença está ligada aos objetivos de cada investidor. No caso do público homossexual, o investimento tende a estar menos associado à proteção de uma estrutura familiar tradicional e mais à construção de autonomia, qualidade de vida e liberdade de escolha.
“Faz sentido buscar crescimento do dinheiro, e não só segurança”, afirma.
“Uma pessoa gay de 35 anos pode investir para viajar mais, trabalhar menos ou se aposentar mais cedo. Já uma pessoa heterossexual da mesma idade, com filhos, pode priorizar a segurança para garantir a estabilidade da família”, diz o criador do método Bixa Rica.
Na mesma linha, Jeff Patzlaff afirma que investidores heterossexuais priorizam a preservação do patrimônio, diante de despesas familiares. Já homossexuais, com maior renda e menos dependentes diretos, tendem a assumir mais risco em busca de rendimento.
Jeff Patzlaff, planejador financeiro e especialista em investimentos
Crédito: DivulgaçãoAplicações em previdência ainda são raras
Apesar de investirem mais em geral, pessoas LGBTQIA+ ainda recorrem pouco à previdência privada. Em 2025, só 1,94% afirmaram que fizeram aplicações neste tipo de investimento. Já entre os héteros, o índice ficou em 1,78%.
A baixa incidência de investimentos na previdência privada pelo público LGBTQIA+ pode ser explicada por ao menos quatro fatores, observa o economista Gean Duarte.
“Um deles é que a previdência ainda é muito comunicada de forma tradicional, quase sempre associada à aposentadoria clássica e à proteção familiar. Além disso, ela é muito utilizada como ferramenta de sucessão patrimonial, ou seja, para facilitar a transferência de patrimônio para herdeiros. E aqui existe um ponto importante: muitas pessoas homossexuais não se conectam com essa lógica, não usam tanto essa linguagem e, em muitos casos, não têm a sucessão patrimonial como uma prioridade central no planejamento financeiro”, entende.
Outra explicação é a liquidez de outros investimentos, ou seja, a facilidade de poder resgatar o dinheiro. “Investimentos mais flexíveis, que permitem resgatar quando quiser ou mudar de estratégia com facilidade, acabam sendo mais atrativos do que produtos mais engessados”, explica Duarte. Por último, outro fator é o próprio desconhecimento.
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entrar“A educação financeira no Brasil ainda é limitada para todo mundo, e quando o mercado não se comunica de forma inclusiva, esse distanciamento fica ainda maior. Na prática, é muito comum ver pessoas que já investem em produtos como Tesouro Direto ou CDB, mas nunca consideraram previdência privada simplesmente porque ninguém explicou direito como funciona ou como aquilo poderia fazer sentido para a vida delas”, explica o criador do método Bixa Rica.
Já o especialista em investimentos Jeff Patzlaff avalia que os dados devem ser interpretados com cautela. Segundo ele, a margem de erro de 1% indica, na prática, um empate técnico entre os públicos, o que impede tratar a diferença como um comportamento consolidado de mercado.
Ele afirma que a baixa adesão à previdência privada é generalizada, independentemente da orientação sexual.
“Independentemente de ser hetero, bi ou homossexual, a esmagadora maioria das pessoas não está colocando seu dinheiro ali”, diz.
Para Patzlaff, no caso do público homossexual, que tende a buscar mais retorno, produtos com taxas altas e menor rendimento perdem atratividade. Nesse cenário, o afastamento da previdência não necessariamente indica falta de informação.
“Muitas vezes é exatamente o oposto, é ter a clareza de que é muito mais inteligente, rentável e barato construir a própria aposentadoria comprando bons títulos públicos e ações do que pagar caro para um banco gerenciar o seu futuro”, afirma.