Guia Negro percorre pontos importantes da história do Movimento LGBTQIA+ na capital paulista. Foto: Divulgação
Guia Negro percorre pontos importantes da história do Movimento LGBTQIA+ na capital paulista. Foto: Divulgação
cultura

Memória LGBTQIA+ vira roteiro turístico em cidades brasileiras

Passeios guiados recuperam trajetórias esquecidas e ajudam a movimentar bares, centros culturais e empreendimentos locais

Um grupo caminha pelo centro de São Paulo numa manhã de sábado. A primeira parada é na praça Roosevelt, onde o guia lembra que foi ali que ocorreu, em 1997, a primeira Parada do Orgulho LGBT da cidade — pequena, com poucas centenas de pessoas. Hoje, o evento reúne milhões e se tornou um dos maiores do mundo.

Alguns quarteirões depois, a caminhada segue em direção ao Largo do Arouche, um dos pontos históricos de sociabilidade da comunidade LGBTQIA+ na capital paulista. Entre bares, monumentos e prédios antigos, surgem relatos pouco conhecidos fora de círculos militantes. É o momento de ouvir episódios de repressão policial, trajetórias de resistência e personagens icônicos –como Brenda Lee, travesti que transformou sua casa em um dos primeiros espaços de acolhimento para pessoas vivendo com HIV/Aids no Brasil durante a epidemia dos anos 1980.

Brenda teve atuação no entorno do Largo, que desde os anos 1970 concentra redes de sociabilidade e trabalho de travestis na cidade. Foi nesse território que ela construiu parte de sua liderança comunitária e articulou ações de apoio a pessoas vivendo com HIV/aids, experiência que posteriormente deu origem à Casa de Apoio Brenda Lee, no bairro da Bela Vista.

Iniciativas como essa têm surgido em diferentes cidades brasileiras. Guias independentes, coletivos culturais e projetos de educação patrimonial passaram a organizar caminhadas que revisitam o passado urbano a partir de experiências LGBTQIA+. Para quem participa, os espaços da cidade passam a ser vistos de outra forma. Lugares conhecidos ganham novas camadas de significado, conectando lembranças que raramente aparecem em monumentos, placas ou guias turísticos.

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“É contar essa história em primeira pessoa da cidade em que a gente vive”, diz Guilherme Soares Dias, da plataforma Guia Negro, que conduz um dos roteiros dedicados à história LGBTQIA+. Os roteiros começaram em 2018, acontece em datas específicas, já que depende de uma quantidade de pessoas com ingresso. “A região da República é um lugar onde a gente se encontra, celebra e constrói memória”, cita o fundador. 

O itinerário passa por pontos importantes da sociabilidade da comunidade e revisita episódios que marcaram esse percurso. Um deles é a Operação Tarântula, realizada em 1987 em São Paulo, quando travestis foram perseguidas e presas sob a justificativa preconceituosa de conter a disseminação do HIV.

“É uma história que muita gente não conhece”, afirma Guilherme. “Quando as pessoas ouvem, percebem que a violência contra pessoas LGBTQIA+ não é algo distante, ela faz parte da história da cidade”. 

Outro ponto do roteiro é o Museu da Diversidade Sexual, localizado na estação República do metrô, que reúne exposições permanentes e temporárias sobre a trajetória da população LGBTQIA+ no Brasil.

Ao longo do passeio, os participantes também entram em contato com bares, centros culturais e pequenos negócios ligados à comunidade. A proposta é mostrar que esses territórios não são apenas lugares de preservação histórica, mas também de circulação econômica. “A gente tem essa preocupação de apresentar esses empreendedores”, explica Guilherme. “As pessoas conhecem o lugar, consomem e voltam depois”. 

Free Walking Tour LGBTQIA+, criado por Rica Castilho, passa por bares e espaços culturais de São Paulo. Foto: Divulgação

Free Walking Tour LGBTQIA+, criado por Rica Castilho, passa por bares e espaços culturais de São Paulo

Foto: Divulgação

Tours LGBTQIA+ para entender a cidade

Em São Paulo, um desses projetos começou de forma inesperada. Estudante de turismo, Rica Castilho costumava organizar caminhadas com amigos em trilhas e cachoeiras como forma de descanso depois de uma rotina intensa de trabalho. Em 2023, os encontros passaram a reunir mais gente e a incluir discussões sobre cidade e desigualdade social. “Sempre que eu compartilhava essas experiências, outras pessoas demonstravam vontade de participar”, conta. “Foi assim que o grupo foi crescendo”. 

A iniciativa ganhou novo impulso quando ele passou a trabalhar na recepção de um hostel na Vila Madalena, zona oeste da cidade. O contato com turistas estrangeiros interessados em conhecer a cidade além dos cartões-postais levou à criação de passeios guiados. “O visitante internacional busca mediação cultural para entender melhor o lugar que está visitando”, afirma. “Ele quer conhecer histórias, entender os contextos”. 

Durante os percursos, feitos mediante agendamento e pagamento, que passam por diferentes locais — definidos de acordo com os interesses dos participantes — o grupo visita bares, feiras e espaços culturais ligados à comunidade LGBTQIA+, formando um circuito que conecta memória e economia local. “Quando a memória é apresentada de forma estruturada, ela deixa de ser só simbólica e passa a gerar renda”, diz Rica, que realiza esse trabalho há dois anos.

SERVIÇO: PASSEIOS DE MEMÓRIA LGBTQIA+

Caminhada São Paulo LGBT – Guia Negro
Cidade: São Paulo (SP)
O que é: Caminhada guiada pelo centro que apresenta personagens, territórios e episódios da história LGBTQIA+ da cidade, como o Largo do Arouche, a Operação Tarântula e o Museu da Diversidade Sexual. O roteiro também passa por bares e empreendimentos ligados à comunidade.
Periodicidade: Datas específicas ao longo do ano (mais frequente em junho)
Valor: A partir de R$ 80 por pessoa (tours abertos) ou R$ 100 em tours privados com mais de 4 pessoas em português/R$ 380 (tours privados com até três pessoas em português)
Contato: Site / Instagram

Free Walking Tour LGBTQIA+ – Rica Castilho
Cidade: São Paulo (SP)
O que é: Passeio guiado pelo centro histórico que conecta memória LGBTQIA+, história urbana e economia local, com paradas em bares, feiras e espaços culturais ligados à comunidade. O roteiro é adaptado de acordo com o interesse do grupo e recebe muitos turistas estrangeiros.
Periodicidade: mediante agendamento
Valor: pago (valor varia conforme grupo)
Contato: Instagram

Rolé Carioca – Memórias LGBTQIA+
Cidade: Rio de Janeiro (RJ)
Resumo: Projeto de educação patrimonial que organiza caminhadas guiadas por historiadores para apresentar a história da cidade a partir de personagens e territórios pouco lembrados, incluindo trajetórias LGBTQIA+.
Periodicidade: programação anual em datas divulgadas nas redes
Valor: gratuito
Contato: Site / Instagram

Outras cidades, diversas narrativas

No Rio de Janeiro, o Rolé Carioca organiza caminhadas guiadas por historiadores que convidam moradores e visitantes a observar os bairros a partir de outras narrativas.

Criado inicialmente como uma atividade de educação patrimonial, o Rolé passou a incluir memórias LGBTQIA+ em alguns de seus roteiros. “Quando a gente fala da história oficial, aparecem quase sempre as mesmas figuras”, afirma Beatriz Novelino, coordenadora de produção do projeto. “A ideia foi mostrar que muitas transformações vieram das camadas populares da sociedade”. 

Entre os personagens lembrados nesses percursos estão figuras como Madame Satã, o escritor João do Rio e João Nery, o primeiro homem trans a fazer cirurgia de readequação sexual no país, além de artistas ligados à cultura drag e aos cabarés que marcaram a vida noturna do centro carioca em diferentes períodos do século 20.

As caminhadas também ajudam moradores a redescobrir o próprio território. Em um dos roteiros realizados em Bangu, por exemplo, uma participante comentou que estava feliz por ver o bairro aparecer em uma reportagem cultural de jornal, e não apenas nas páginas policiais. Segundo Beatriz, os passeios criam uma relação diferente com a cidade. “As pessoas passam por aquele lugar e passam a lembrar da história que ouviram ali”. 

Rolê Carioca passou a incluir memórias LGBTQIA+ em alguns de seus roteiros no Rio de Janeiro. Foto: Divulgação

Rolê Carioca passou a incluir memórias LGBTQIA+ em alguns de seus roteiros no Rio de Janeiro

Foto: Divulgação

Memória que também vira negócio

Apesar do interesse crescente, manter essas iniciativas ao longo do ano ainda é um desafio. No caso dos tours dedicados à história LGBTQIA+, a procura costuma se concentrar no mês de junho, quando ocorrem as celebrações do orgulho.

A criação desses roteiros também envolve pesquisa histórica, atualização constante e curadoria dos itinerários. Para Guilherme, do Guia Negro, que também é jornalista, apresentar as narrativas a partir das próprias vivências tem um sentido político. “Ter essas pessoas contando as histórias em primeira pessoa é sempre algo muito importante”. 

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Iniciativas semelhantes também dependem de redes de pesquisa e colaboração para se manter. No projeto Rolé Carioca, no Rio de Janeiro, os passeios são conduzidos por historiadores que investigam os territórios e constroem recortes temáticos para cada caminhada. O projeto funciona principalmente por meio de leis de incentivo e editais culturais. 

Para Rica Castilho, políticas públicas também poderiam fortalecer esse tipo de iniciativa. “Editais de incentivo poderiam viabilizar a participação de pessoas LGBTQIAPN+ de baixa renda nos roteiros urbanos, garantindo acesso ao lazer sem inviabilizar economicamente o trabalho”. 

De acordo com os organizadores, os passeios também criam impacto econômico. Além da remuneração dos guias, muitos roteiros incluem paradas em bares, feiras e pequenos negócios ligados à população LGBTQIA+, ampliando a circulação de visitantes nesses espaços. Durante as caminhadas, participantes conhecem empreendedores da região e frequentemente consomem ou retornam depois. 

Segundo Rica Castilho, quando essas histórias passam a ser organizadas em experiências guiadas, “deixam de ser apenas simbólicas e passam a gerar renda”, indica. “É um tour que ainda é pouco conhecido e pouco comprado ao longo do ano”, diz Guilherme. “Junho traz mais visibilidade, mas a gente tenta manter essas histórias circulando”.

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