O ator Davi Tápias no papel de Herbert Daniel. Foto: Divulgação
O ator Davi Tápias no papel de Herbert Daniel. Foto: Divulgação
cultura

Herbert Daniel, a bicha guerrilheira

Crítica da peça ‘Codinome Daniel’, do Núcleo Experimental (SP)

Há algo interessante para se observar na volta da aids como temática no teatro de hoje. Não que o assunto tenha se esgotado (longe disso), mas ele já não carrega o mesmo peso de urgência trágica levada aos palcos nos anos 1990. Naquela época, a doença era sentença, metáfora, acusação moral, e o teatro respondeu como pôde: com fúria, poesia e enfrentamento. Trinta anos depois, o que resta não é menos grave, mas é diferente. E isso se reflete em cena.

A “Trilogia para a Vida”, do Núcleo Experimental de Teatro, nasceu nesse intervalo. Ela olha para a epidemia de HIV/aids como linha contínua que cruza biografias e contextos políticos. Em vez de números, pessoas. Em vez de tese, histórias. É também uma trilogia musical, escolha arriscada, mas coerente com o desejo de fabular sem suavizar.

As três peças percorrem tempos distintos. “Lembro Todo Dia de Você”, a primeira, se ancora no presente e acompanha o impacto do diagnóstico de HIV na vida de um jovem, num percurso íntimo, quase confessional. “Brenda Lee e o Palácio das Princesas”, a segunda, retorna aos anos 1990 para narrar a criação da primeira casa de acolhimento para travestis e mulheres trans vivendo com aids em São Paulo — é, de longe, a montagem mais madura e completa do conjunto.

Já “Codinome Daniel”, a terceira e última da trinca, recua ainda mais no tempo, mergulhando nos anos 1970 para reconstruir a trajetória de Herbert Daniel, guerrilheiro, intelectual, gay e uma pessoa que conviveu com aids.

Assisti a “Codinome Daniel” neste mês de janeiro, durante uma curta temporada em São Paulo. Eu já havia lido o texto da peça, lançado em livro no ano passado, e, em cena, a montagem acaba dando relevo a fragilidades que já apareciam no papel.

Cleomácio Inácio (esq.), Davi Tápia (centro) e Renato Caetano (dir.).

O espetáculo tenta dar conta de muita coisa. Talvez coisa demais. Herbert teve, de fato, uma vida agitada. Estudante de medicina na UFMG nos anos 1960, integrou a luta armada contra a ditadura militar brasileira. Nesse período, conheceu e se tornou amigo de Dilma Rousseff, também militante, e participou de assaltos a bancos e do sequestro de diplomatas estrangeiros. Precisou, depois, se esconder para não ser preso ou morto pelos militares.

Como se não bastasse a perseguição política, Herbert enfrentou também a repressão à própria sexualidade —tanto a resistência interna, mantendo-se no armário, quanto a hostilidade dos companheiros de movimento, para quem a homossexualidade era vista como desvio pequeno-burguês.

Essa vida movimentada é alinhavada no espetáculo em episódios, seja pelos delírios de Herbert na solidão do “aparelho” (como chamava o esconderijo em que viveu na clandestinidade), seja pela narração do historiador norte-americano James Green, seu biógrafo.

A intenção é clara: contextualizar, reparar, inscrever Herbert num lugar de destaque que lhe foi historicamente negado. O problema é que a opção dramatúrgica de ter um narrador interferindo o tempo todo pesa. James soa repetitivo, excessivamente explicativo, quase ansioso por não deixar lacunas.

Com tanto tema, a abordagem biográfica escolhida por Zé Henrique de Paula acaba deixando de lado pontos centrais da trajetória de Herbert. Nem mesmo sua atuação no movimento LGBTQIA+, com participação efetiva no Lampião da Esquina, ganha espessura dramática. Esse engajamento, que articulava sexualidade, imprensa alternativa e dissidência política, surge apenas de passagem, quando poderia aprofundar o conflito entre desejo, militância e projeto revolucionário.

O mesmo ocorre com a relação da esquerda com a homossexualidade. A peça reconhece a LGBTfobia presente em setores do movimento, mas não a transforma em conflito estruturante. Falta fricção, desconforto, embate.

Outra inclinação do espetáculo é ao didatismo, que aparece sobretudo nas passagens mais explicativas sobre HIV/aids, em especial no extenso discurso final de Herbert —que, após o diagnóstico da infecção pelo vírus, passa a liderar um grupo de conscientização e luta por políticas públicas para pessoas com HIV/aids. Não se trata de discordar do conteúdo, mas de estranhar a forma. Num espetáculo cujo maior trunfo está justamente na exploração das zonas subjetivas, o excesso de explicação soa deslocado, como se a peça desconfiasse da própria força cênica.

Há ainda uma romantização da figura do guerrilheiro Carlos Lamarca, amigo de Herbert, que acaba esgarçando o tecido político da obra.

O texto também levanta questões relevantes que não chegam a se resolver. Ficam fios soltos para o espectador: por que Herbert se tornou um dos homens mais procurados pela ditadura? Como se dá, concretamente, sua passagem para a clandestinidade armada?

Ainda assim, “Codinome Daniel” é um espetáculo emocionante. Tem cenas de grande impacto. O encontro entre Herbert e Vana (codinome usado por Dilma Rousseff na militância) é, para mim, o ponto alto da montagem. Ao descrever a “anatomia da tortura” sofrida na prisão, o texto abandona qualquer impulso pedagógico e encontra a carne da experiência. Não há explicação ali, apenas o impacto seco da violência narrada.

É o bom elenco que melhor traduz o verdadeiro trunfo da trilogia: explorar subcamadas, zonas de silêncio, aquilo que não se resolve facilmente. Nesse sentido, o trabalho de Luciana Ramanzini, a mais experiente do grupo, se impõe. Camaleônica, ela cruza por registros variados com precisão e fluidez. Vai da Vanda marcada pela dor do DOI-CODI à carismática mãe Geny, sempre com a mesma força dramática.

Vista em conjunto, a “Trilogia para a Vida” se afirma como um gesto de memória. Quando confia na experiência subjetiva e no conflito, alcança seus momentos mais fortes; quando se deixa capturar pela explicação e pela homenagem literal, perde potência. Ainda assim, ao devolver rosto, voz e contradição a histórias marcadas pelo estigma, as três obras ocupam um lugar relevante num país que segue relutante em encarar seu passado —e seu presente— sem atalhos.

Luciana Ramanzini como Vanda

“Codinome Daniel” ★★★☆☆
Núcleo Experimental. Elenco: Davi Tápias, Luciana Ramanzini, Fabiano Augusto, Robson Lima, Bruna Guerin, Cleomácio Inácio, Renato Caetano e Fábio Enriquez. Dramaturgia e Letras: Zé Henrique de Paula. Música original: Fernanda Maia. Direção: Zé Henrique de Paula. Direção musical: Fernanda Maia. Assistência de direção musical: Guilherme Gila. Assistência de direção: Mafê Alcântara. Cenografia: César Costa. Figurinos: Úga Agú e Zé Henrique de Paula. Assistência de Figurino: Cauã Stevaux e Ana Trucharte. Iluminação: Fran Barros. Desenho de som: João Baracho. Preparação de elenco: Inês Aranha. Visagismo: Dhiego D’urso. Cenotécnica: Jhonatta Moura. Produção: Laura Sciulli e Victor Edwards. Fotos: Ale Catan. Design gráfico: Laerte Késsimos. Textos para programa: Isa Leite. Assessoria de imprensa: Pombo Correio. Redes sociais: 1812 Comunicação.

Este texto foi publicado originalmente na newsletter Rubricas, criada pelo fundador da Diadorim, Mateus Araújo, com foco em teatro.

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Mateus Araújo

Jornalista pela Universidade Católica de Pernambuco e mestre em Artes pela Unesp, pesquisa masculinidades no teatro. É repórter do TAB UOL. Já escreveu para revista Continente, Folha de S.Paulo e integrou a editoria de Cultura do Jornal do Commercio. Foi cofundador da Diadorim.

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