
Corpos que escrevem, palavras que resistem: literatura LGBTQIA+ latina
“Só existem dois gêneros” — assim disse o presidente dos Estados Unidos em seu primeiro discurso oficial na posse, no início de 2025. Logo depois, vimos uma série de deportações de imigrantes do país que, em uma imagem-símbolo, é representado por um homem velho chamado Sam promovendo a liberdade. Problemas de diplomacia ali, discursos hegemônicos lá, latinos foram descartados, enviados a seus países como criminosos de Guantánamo. O discurso de Trump continua — e aqui reverbera em deputados, senadores e políticos municipais da extrema-direita, que insistem em se afirmar como parte do mesmo grupo do “businessman” norte-americano. Eles não são — e são, sob outra perspectiva.
Gosto de pensar que somos todos latinos, mesmo que alguns ainda insistam em viajar para fora e, por lá, se esconder e atacar o maior sistema jurídico brasileiro. Em um aspecto geográfico, ainda somos todos latinos: irmãos e amigos de bolivianos, chilenos, peruanos, venezuelanos, argentinos, uruguaios etc. Todavia, emerge também, no discurso dos políticos latinos da extrema-direita, a narrativa de posicionar o corpo do outro como dissidente, como o errado, a fim de proteger aquilo que, para eles, é o bem precioso: a família cisgênera heteronormativa.
Podemos atentar para o perigo de associar o corpo do outro (o imigrante, a pessoa LGBTQIA+, a mulher, o “queer” etc.) a um objeto anômalo. Desde muito tempo, essa tática tem sido uma das melhores formas de engrandecimento perante as massas e de reafirmação de posicionamentos políticos. Como Foucault atentou em “A ordem do discurso” (1971), o discurso é muito mais do que a linguagem: é uma série de acontecimentos que acendem símbolos, categorizam conhecimentos, moldam e posicionam aquilo/quem. Quando qualquer letra do grupo de pessoas é posta como um abjeto, um bode expiatório culpado pelos males da economia capitalista e neoliberal, os corpos entram (ou permanecem) na margem da sobrevivência.
Quando trazemos para esta discussão as contribuições de Judith Butler em “Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade” (2003), sobre performatividade, entende-se que o gênero se faz: não é algo ligado à essência (se é que existe uma). Guacira Lopes Louro, em “Um corpo estranho” (2018), cita Butler para entender como a linguística é emprestada para conceituar a performatividade, afirmando a linguagem como referência — e não apenas como constatação ou descrição de corpos, mas como construção (o fazer) do gênero.
Certo. Se chegamos até aqui, podemos entender que a ficção literária é um dos vieses interessantes para deslocar o corpo dissidente da borda para o centro. Porém, infelizmente, é um deslocamento que tenta, mas não necessariamente abala essa estrutura dominante. Ou abala?
Se colocarmos o gênero romance como base, devemos entender que, mesmo ele, é fundado em ramificações e pluralidade (imagine, então, pensar toda a literatura queer latina como objeto!). Para Bakhtin, em “Questões de literatura e de estética: a teoria do romance” (2014), é o gênero que abre para diversas experimentações estéticas, tendo pontos de lirismo, poesia e novas formulações — outras que se renovam na contemporaneidade. Em uma comparação simples e sem qualquer fim acadêmico: não seríamos nós, todos do extenso grupo LGBTQIA+, também movidos a experimentações e com nossos pontos de lirismo?
Pensar em uma literatura LGBTQIA+ é expandir o leque de possibilidades de histórias — seja drama, comédia, terror, literatura de conforto etc. Há espaços para todos os tipos. No artigo “Narrativas da sexualidade: pressupostos para uma poética queer”, Anselmo Peres Alós, doutor em Letras pela UFRGS e professor da UFSM, compara brevemente o romance “Onde andará Dulce Veiga?” (1990), de Caio Fernando de Abreu, com “O beijo da mulher-aranha” (1976), do argentino Manuel Puig — em que ambos, com suas divergências estéticas, tentam desestabilizar as categorias de “homossexualidade” e “heterossexualidade”.
Trago aqui um exemplo de livro de 2001, infelizmente ainda não traduzido para o português, do chileno Pedro Lemebel: “Tenho medo, torero”, romance situado em Santiago sob os olhos de Pinochet, narrando um amor entre uma travesti e um jovem reacionário. A única novela escrita por Pedro é cheia de referências a canções chilenas e cultura popular; a escrita é, por vezes, rítmica e floreada. É nesse ponto que ela se torna um exemplo de que a literatura e sua linguagem serão sempre uma maneira de resistência. Como não existe ainda essa tradução, indico o filme de 2020 inspirado na obra, dirigido por Rodrigo Sepúlveda.
Em formas de resistência brasileiras, temos muitas — e fico contente em dizer que mapeá-las seria um extenso trabalho, com uma longa lista. Por isso, trago aqui o ativista, pesquisador e romancista João Silvério Trevisan, com “Em nome do desejo” (2000), narrado em primeira pessoa, em que um homem gay identifica, no processo, a sua infância repressiva, o medo e a dificuldade em lidar com suas próprias vontades, trazendo diversas reflexões filosóficas e existenciais.
Ainda no Brasil, com uma potência ao colocar no jogo do mercado editorial um livro escrito integralmente em linguagem codificada da comunidade travesti brasileira, temos Amara Moira, com “Neca: romance em bajubá” (2024). Além de inovadora em um elemento estilístico, a autora não se propõe a criar um glossário para o entendimento da narrativa: entende quem quer e quem faz parte. Amara, nas palavras de sua personagem Simona, descreve memórias de travestis e prostituição, reflete sobre cultura e literatura. Um livro que resiste tanto na forma quanto em seu conteúdo.
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entrarA literatura latina é uma forma artística que tenta abalar as estruturas hegemônicas de engravatados no poder — sejam eles laranjas estadunidenses ou mesmo de nossas terras. Se performar o gênero se assegura na linguagem, como disse Butler, temos na literatura um elemento não apenas de fuga, mas de combate. E, por mais que, após infinitas batalhas, o corpo dissidente — que ora está na borda e se desloca para o centro (quando exaltamos pessoas escritoras de nossa comunidade, por exemplo) — ainda assim é um deslocamento. E, para o pensamento heteronormativo, isso é um terror. Escrever, ler, fazer arte LGBTQIA+ é deslocar-se — e ser o pesadelo de quem deseja controlar nossos corpos.
Michael Maia
É um homem cis gay, escritor e jornalista. Autor do livro "Entre a vida e a morte, há vários documentos" (Paraquedas, 2024), em que dedicou pesquisas amplas sobre sociedade, morte e suicídio, além de suas próprias experiências com o luto. Instagram: @maicud.