

Um temporal, no último dia 12, derrubou uma das árvores mais icônicas do centro de São Paulo: a chichá do Largo do Arouche. Com mais de 200 anos, a árvore da espécie Sterculia striata fazia parte do paisagismo da cidade e era uma das poucas remanescentes da Mata Atlântica na região. Mas seu significado ia além da botânica: a chichá tornou-se um símbolo da história e da resistência da população LGBTQIA+, que há décadas frequenta o Arouche.
A relação entre a comunidade e a árvore era tão forte que a chichá foi incluído no Inventário Participativo LGBTQIA+ do Brasil, realizado pelo Coletivo Arouchianos em parceria com a Rede Paulista de Educação Patrimonial (Repep) e a Universidade de São Paulo (USP). Publicado em 2023, o livro mapeou locais históricos e afetivos da população LGBTQIA+ no centro da cidade.
O Largo do Arouche, na região central de São Paulo, sempre foi um espaço de encontros e resistência. Desde os anos 1950, quando a República passou por um processo de desvalorização econômica, a região foi ocupada por bares, saunas, boates e motéis voltados ao público LGBTQIA+. Durante a ditadura militar, o local foi palco de perseguições e violências, especialmente contra travestis e mulheres trans.
Nos anos 1980, grupos de feministas, negros e estudantes se manifestaram contra a repressão policial na região, entoando o grito “O Arouche é nosso!”. A chichá estava lá, testemunhando essas e muitas outras mobilizações, conforme aponta o Inventário Participativo Arouche LGBTQIA+.
Não à toa, sua queda gerou um sentimento de luto na comunidade LGBTQIA+. O Coletivo Arouchianos destacou, em nota publicada no Instagram, que a árvore era parte essencial da história local — um ponto de encontro e uma testemunha silenciosa de amores, violências e celebrações.
“Beijei e troquei afetos encostado nela, me escondi. Se procurar direitinho, tem uma marca com meu nome nela. E hoje, depois da chuva, veio ao chão”, relatou Ghe Santos, secretário-geral do Consulado LGBTQIA+, ao coletivo.
Entre as lembranças também está a história de Cícero de Oliveira e José Itoiz, o Pepe.
José, espanhol, fugiu da ditadura de Francisco Franco e chegou ao Brasil em 1957, onde construiu uma rede de quitandas. Cícero, por sua vez, saiu do interior do Piauí para São Paulo no início dos anos 1980 e, após anos de discrição, assumiu sua sexualidade.
O casal se conheceu em 1986, no bar Caneca de Prata, e desde então construiu uma vida juntos. Em 2000, Cícero comprou o Caneca, na vizinhança que tanto amavam. A chichá era a vista da janela de casa deles, que José costumava observar. Quando ele morreu, Cícero, então, decidiu jogar as cinzas do marido aos pés da árvore.
Além de sua relevância histórica e cultural, a chichá era uma das poucas árvores centenárias remanescentes em São Paulo. Apesar disso, moradores do entorno se queixavam de falta de cuidados da Prefeitura com a manutenção dele — o que colaborou com a queda.
No dia 16 de março, um grupo realizou um ato em memória à chichá, reunindo-se para dar um abraço simbólico no tronco que restou.
“A sua recuperação é lenta e difícil, mas possível. Para que tenha chance de rebrotar, há necessidade de mais espaço ao redor dela e atenção especial”, disse o vereador Nabil Bonduki (PT), que esteve presente na manifestação.
Em vídeo nas redes sociais, Bonduki publicou a fala de Juliana Gatti, integrante do Instituto Árvores Vivas, que propôs a formação de um comitê para acompanhar a regeneração da chichá.