
‘Cuidado e permanência são centrais’: evento e livro marcam 10 anos do núcleo trans da Unifesp
Um evento em São Paulo nesta sexta-feira celebra os 10 anos do Núcleo TransUnifesp, criado para ampliar o acesso, o cuidado em saúde e a permanência de pessoas trans no ensino superior. Ao longo de uma década, o núcleo se consolidou como referência nacional em ações afirmativas e atendimento multiprofissional na universidade.
O evento, que ocorre no anfiteatro da Reitoria da Universidade Federal de São Paulo, terá debates ao longo de todo o dia e reunirá pesquisadoras, ativistas e gestoras públicas para discutir inclusão, permanência e cidadania de pessoas trans na universidade brasileira. Entre as convidadas estão Symmy Larrat, secretária nacional dos Direitos das Pessoas LGBTQIA+, e Bruna Benevides, presidenta da Antra (Associação Nacional de Travestis e Transexuais).
O encontro também marca o lançamento do livro coletivo “Saúde e Cidadania da População LGBTQIA+: 10 anos do Núcleo TransUnifesp”.
Em entrevista à Diadorim, o escritor, professor de Direito da Unifesp e um dos coordenadores do núcleo, Renan Quinalha, fala sobre os desafios enfrentados pelo NTU, os avanços institucionais conquistados e os riscos representados pelo avanço de pautas antigênero no país.
Quinalha destaca que a atuação do núcleo só se consolidou graças à formação de uma equipe multiprofissional e ao diálogo com redes nacionais, o que permitiu incorporar epistemologias trans ao ambiente acadêmico e ampliar o debate sobre direitos sexuais e de gênero dentro da universidade.
Ele também reforça que políticas de cotas só funcionam quando acompanhadas de condições reais de permanência. Segundo o professor, o acesso imediato ao ambulatório do NTU e o acompanhamento especializado têm reduzido a evasão e se tornado modelo para outras instituições. A Unifesp aprovou em 2024 cotas para pessoas trans e travestis na graduação e pós-graduação.
O núcleo agora pretende ampliar esse monitoramento por meio de um observatório dedicado às ações afirmativas para pessoas trans no ensino superior.
O escritor e professor de direitos Renan Quinalha, um dos coordenadores no Núcleo TransUnifesp
Foto: DivulgaçãoAGÊNCIA DIADORIM — Quais foram os maiores desafios, em uma década, na atuação do Núcleo Trans na Unifesp e quais os gargalos que ainda existem?
RENAN QUINALHA — Acho que há vários, em um contexto de muitos ataques à universidade pública e de muitos ataques também às iniciativas de pesquisa, de ensino e extensão no campo da diversidade sexual e de gênero. Então, acho que são muitas dificuldades de conjuntura. Um período de 10 anos é relativamente longo no Brasil e pega tempos muito diversos. Em 2015, quando começam as primeiras iniciativas de articulação, temos ainda o governo Dilma; depois pegamos o período do governo Temer e Bolsonaro; e agora uma reconstrução, no governo Lula, dessa agenda. São momentos muito diversos, que colocaram dificuldades específicas. Mas houve, acho, um desafio central, que era o da institucionalização — que foi o que nós conseguimos. Um núcleo de pessoas que era quase um grupo muito pequeno, de pesquisa e de tentativa de assistência ainda em especialidades, no trato da saúde ainda muito limitadas. Conseguimos instituir um serviço que é multiprofissional, multicampi, interdepartamental. Tem gente de todas as áreas, todos os campi.
Uma iniciativa que se consolidou como órgão complementar da universidade — uma medida importante — ocorreu em 2021, quando passamos a ter um estatuto mais sólido dentro da universidade. Isso também permite repercutir mais para fora as ações que temos feito, com uma estabilidade que não depende da reitoria do momento, do governo federal do momento e assim por diante.
DIADORIM — Qual o impacto dessa atuação do ponto de vista de avanços dentro da universidade e, principalmente, do acolhimento e da representatividade de pessoas trans na Academia?
RENAN QUINALHA — Dentro da universidade avançamos em várias frentes. Temos projetos e programas de extensão que permitem diálogo amplo com a sociedade civil e com o movimento social trans. Temos uma ligação muito próxima com as redes nacionais tentando sempre costurar essa ideia de nada sobre nós sem nós, que é um lema do movimento trans. Temos ainda uma realidade de poucas pessoas trans na universidade, mas participamos da construção, durante um ano e meio, de uma política de portas para pessoas trans, que tem sido vista como uma referência. Só em 2025 tivemos mais de 50 ingressantes trans nos diferentes cursos de graduação, e há também previsão para os cursos de pós-graduação agora, com entradas específicas. Vamos ter agora o segundo ano dessa entrada. Estamos muito animados com essa perspectiva de ter uma universidade cada vez mais diversa e inclusiva para pessoas trans. E temos feito um trabalho também interno: luta por permanência, por condições de permanência, e luta por qualificação e educação de servidores e servidoras, para que entendam, para que sejam letrados em direitos sexuais e de gênero. É um trabalho que vai tanto para fora quanto para dentro, nessa perspectiva de conseguir maior representatividade — trazendo inclusive para os currículos uma epistemologia trans, incluindo nas várias áreas do conhecimento, reinterpretando a medicina, o direito, áreas tradicionais, para que possamos discutir esses temas de interesse da população trans e intersexo de modo específico e mais central, mas também de toda a população LGBT+.
DIADORIM — Na efeméride de 10 anos, o Núcleo vai lançar um livro sobre saúde e cidadania LGBTQIA+. Por que a escolha deste tema? E como a academia pode responder às tentativas constantes de restrição do acesso à saúde impostas à população trans no país?
RENAN QUINALHA — Esse livro foi construído a partir de um curso de extensão que fizemos. Tivemos 100 pessoas participantes do país todo, em um curso online aos sábados, e uma fila de espera de mais de 300 pessoas. Foi uma procura muito grande, que demonstrou um sucesso e um interesse real na temática. A partir desse curso, decidimos, justamente para democratizar o acesso ao conteúdo — ele também está gravado no nosso site do Trans e disponível — fazer esse livro. É um outro suporte, uma plataforma escrita e impressa, para circular. O PDF será gratuito, poderá ser baixado, e a ideia é ampliar um diálogo que já estamos tentando fazer com outros ambulatórios trans do país, para que consigamos construir uma rede nacional que possa tematizar o direito à saúde e à cidadania para a população trans e intersexo. Assim, conseguimos amplificar esses serviços e capitalizar mais. Estamos envolvidos em um projeto do SUS Digital, com o Ministério da Saúde, justamente para qualificar equipes de ambulatórios do SUS pelo Brasil todo, que possam também tratar da população trans, que ainda é um serviço muito restrito a capitais e hospitais universitários.
Unifep aprovou em 2024 reserva de cotas para pessoas trans
Foto: Alex ReipertDIADORIM — Um levantamento feito pela Diadorim, através da Observatória, mapeou inúmeros projetos de lei para proibir cotas para pessoas trans nas universidades. Como você avalia o impacto do avanço da extrema direita sobre as políticas universitárias de inclusão? O que mudou na rotina do Núcleo?
RENAN QUINALHA — A gente tem tido campanhas permanentes contrárias aos direitos da população LGBT+, sobretudo da população trans, no Brasil e no mundo. Esse é um cenário visível na política internacional, mas também, como você mencionou, nos projetos de lei apresentados no Congresso e em outras casas legislativas. Somos, obviamente, impactados por isso.
Tivemos denúncias de uma deputada federal de extrema direita contra o sistema de cotas da Unifesp no Ministério Público Federal, mas a denúncia foi arquivada. Ainda assim, vemos uma concertação de um movimento antigênero que junta setores da extrema direita; religiosos católicos, evangélicos e pentecostais; grupos pró-vida; mas também feministas radicais e até mesmo pessoas do campo mais progressista, que ainda têm uma compreensão muito atrasada sobre diversidade sexual e de gênero.
Tudo isso coloca para nós um desafio, desde a universidade — que é um lugar de produção e legitimação de saberes, de questionamento crítico da realidade e de intervenção nessa realidade. Acho que isso nos desafia a somar na luta pelos direitos fundamentais, pela vida e pela cidadania dessa população trans tão estigmatizada e atacada nessa conjuntura.
DIADORIM — A partir da experiência na Unifesp, o que é possível apontar sobre as condições materiais, simbólicas e institucionais para que estudantes trans consigam concluir seus cursos?
RENANA QUINALHA — Temos discutido muito as cotas trans em várias universidades do país — já são mais de 30 que instauraram políticas de cotas nas graduações —, mas quisemos ir além. As ações afirmativas não envolvem apenas cotas, reservas de vagas ou criação de novas vagas, mas também condições de permanência e de cuidado para a população trans. Meu texto no livro é justamente sobre isso: no livro coletivo sobre ações afirmativas nesses 10 anos, tentando mapear os desafios postos para além da reserva de vagas. No Núcleo Trans Unifesp, um ponto muito positivo é que quem entra — a pessoa trans ingressante na universidade — tem acesso ao ambulatório do Núcleo Trans. Ou seja, ela consegue imediatamente um encaminhamento para ser atendida e acompanhada pelos profissionais do Núcleo Trans Unifesp. Isso é algo às vezes difícil de conseguir via SUS: acompanhamento em ambulatorial trans com tantas pessoas qualificadas, bem treinadas, especializadas nas suas áreas, como é o perfil dos quadros do Núcleo Trans universitário.
Então dizemos que temos, além de uma política de cotas e de permanência, com bolsas pensadas para a população trans, ainda que em um cenário de precariedade e subfinanciamento, uma política de cuidado em saúde para essa população ingressante. Isso, com certeza, ajuda a manter essas pessoas e a reduzir o nível de evasão e até de expulsão que muitas vezes acontece no ensino superior. Mas esse é um desafio com o qual ainda estamos lidando, mapeando, porque iniciamos no ano passado as entradas mais massivas de pessoas trans. Antes, entrava uma ou outra pessoa, ou alguém que transicionava já na universidade. Agora estamos vendo isso em outra escala.
Isso também nos permite fazer novas análises. Queremos aprofundar isso no Observatório das Ações Afirmativas para Pessoas Trans no Ensino Superior, que é um projeto do Núcleo Trans para o ano que vem.