a política de cotas para trans, travestis e não binárias na Unicamp
Foto: Thomaz Marostegan/Unicamp
educação

‘Espaço seguro’: a política de cotas para trans, travestis e não binárias na Unicamp

Universidade aprovou, por unanimidade, criação de cotas para nos cursos de graduação

A Unicamp aprovou, por unanimidade, em 1º de abril, a criação de cotas para pessoas trans, travestis e não binárias nos cursos de graduação. A nova política será aplicada ao processo seletivo via Enem-Unicamp e valerá para candidatos de escolas públicas e privadas.

Cursos com até 30 vagas deverão oferecer, no mínimo, uma vaga para essa população. Nos cursos com 30 ou mais vagas, a oferta mínima será de duas. As vagas podem ser adicionais ou retiradas da ampla concorrência, conforme decisão de cada unidade.

A criação da política de cotas para pessoas trans resultou de mobilizações estudantis, durante a greve de 2023. Como parte das negociações, um grupo de trabalho (GT) foi instituído em maio do ano passado para formular a proposta. O professor José Alves Neto, coordenador do GT e diretor da Comissão Permanente para os Vestibulares (Comvest), destaca a participação ativa de sete pessoas trans no grupo, além de professores e funcionários da Unicamp.

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“Foi o GT mais horizontal do qual já participei. Nesse espaço, tivemos a oportunidade de trocar experiências, conhecer diferentes arcabouços teóricos, legislações e analisar experiências de universidades nacionais que já haviam implementado políticas de cotas para pessoas trans”, afirma Neto.

De acordo com ele, a ideia era garantir também que a reserva de vagas fosse integrada ao sistema Enem-Unicamp, que possui abrangência nacional. “Trabalhamos para que as políticas de cotas para pessoas trans fossem implementadas por meio do Enem, permitindo que candidatos de todo o país disputassem essas vagas”, explicou o professor.

Para concorrer às vagas reservadas, as pessoas precisarão apresentar uma autodeclaração acompanhada de um relato de vida, no qual deverão descrever suas experiências pessoais e escolares. O documento não influenciará a classificação, mas será utilizado para garantir a legitimidade das candidaturas. Em caso de inconsistências, a autodeclaração poderá ser invalidada, resultando no cancelamento da matrícula.

José Alves Neto, coordenador da Comvest e integrante do grupo de trabalho que formulou a proposta

Foto: Antonio Scarpinetti/Unicamp

A análise será conduzida por uma comissão que incluirá pelo menos uma pessoa trans. “Queremos que pessoas trans enxerguem a Unicamp como um espaço seguro e que possamos aprender com suas experiências”, ressalta José Alves Neto.

A expectativa é que a medida amplie a presença de pessoas trans na universidade. No último vestibular, mais de 270 pessoas trans se inscreveram, dos quais 40 foram aprovadas. O professor destaca que a taxa de aprovação para esses grupo (três em cada 20) já é superior à média geral da universidade (uma aprovação a cada 20 candidatos), o que reforça a importância da ação afirmativa.

A nova política será avaliada após cinco anos para medir sua efetividade. Entre os critérios analisados estarão a demanda pelas vagas e os impactos na inclusão. Um dos pontos que poderá ser debatido futuramente é a elegibilidade de estudantes de escolas privadas. “Neste primeiro momento, entendemos que o preconceito, a perseguição e as dificuldades enfrentadas por pessoas trans ocorrem tanto em escolas públicas quanto privadas”, pontua.

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